A Decepcionante Nova Recomendação do ACSM (2026) Para Hipertrofia e Força Muscular: Fábrica de Verdades
- Blog Prof. Wellington Lunz
- há 11 horas
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Resumo: A nova diretriz do ACSM (2026) sobre hipertrofia, força e potência traz avanços relacionados ao rigor metodológico, mas, também, graves limitações, as quais podem perpetuar falsas verdades e induzir prescrições equivocadas de treino. Esses problemas se referem principalmente a conclusões baseadas em evidências frágeis e enviesadas, generalizações e conceituações indevidas que enviesam a interpretação, ao número limitado de autores, apresentação ruim dos resultados, mistura de populações, heterogeneidade das medidas, uso da “não diferença” como evidência de ausência de efeito. Recomendo leitura atenta.

Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Foi publicada, depois de 17 anos, a nova diretriz (2026) do American College of Sports Medicine (ACSM) para treinamento para força, potência e hipertrofia, especificamente para adultos saudáveis.
Há avanços principalmente no método, mas os problemas são maiores. Sinceramente, tenho duas certezas na vida: uma é que morreremos um dia, e a outra é que o ACSM vai nos decepcionar. Nunca falha. Tempos atrás orientei um artigo científico sobre isso: Cabral et al. (2020).
Aliás, publiquei originalmente colocando a palavra 'vergonhosa' no título, mas, para ser mais educado (o que é sempre de bom tom), mudei a palavra para 'decepcionante'.
Vou apresentar as qualidades e os problemas que identifiquei. Mas, antes, devo dizer que focarei em hipertrofia muscular, que é meu principal interesse. Mas a diretriz do ACSM tem problemas também quanto à força e potência muscular.
Vou começar pela conclusão, para depois mostrar como isso é uma verdade fabricada. A diretriz do ACSM recomenda o seguinte para hipertrofia muscular (está na tabela 6 do artigo). Ficou só assim:
>> Tipo: Contrações excêntricas/sobrecarga
>> Volume: ≥10 séries/semana (relação dose-resposta)
Sim, para o ACSM, só isso aí em cima importa (tipo de contração e volume) para hipertrofia muscular. Vou mostrar o tamanho do salto indutivo do ACSM. Mas, para ser justo, vou começar com o que melhorou em comparação à diretriz do ACSM de 2009.

(1) Melhora metodológica significativa
A diretriz faz um overview de 137 revisões sistemáticas, cobrindo mais de 30.000 participantes (embora devamos desconsiderar estudos repetidos nas revisões). É um avanço importante, dado que a diretriz de 2009 foi uma revisão narrativa, feita majoritariamente por profissionais que não eram especialistas da área.
(2) Uso de boas práticas científicas
Os autores registraram o protocolo em base específica, mediram a qualidade das revisões incluídas por instrumento específico (AMSTAR), incluíram o checkist PRISMA, e fizeram uma classificação objetiva da qualidade da evidência, que chamaram de QoE.
Também se preocuparam com o clássico problema da sobreposição de estudos (double counting) envolvendo 'revisão de revisões' (umbrela review). Encontraram, segundo eles, 6% a 10% de estudos repetidos dentro das revisões.
(3) Participação de especialistas da área
O grupo de autores inclui nomes bem conhecidos da ciência associada ao treinamento de força e hipertrofia, o que é um avanço em relação a diretriz de 2009. Embora eu deva já engatilhar uma crítica que farei adiante: foi um número muito insuficiente perto dos bons cientistas que temos.
(4) Foco em variáveis de prescrição
A diretriz tenta responder a uma pergunta central para a prática: “Quais variáveis do treinamento realmente importam para hipertrofia?”
Agora vamos aos problemas:
(1) Número limitado de autores
Os autores dessa diretriz do ACSM são todos da mesma “panela”. Faltaram vários importantes cientistas da área, incluindo, principalmente, vários do Brasil e países europeus e asiáticos. Não é com uma “panela” (hoje chamam de “bolha”) que se faz um trabalho dessa importância.
(2) Apresentação ruim dos resultados
O primeiro problema é afirmar que algo é melhor ou pior sem apresentar magnitude de efeito. Depois leia meu post: Se Você Não Sabe a MAGNITUDE, Então Você Não Sabe para entender essa importância.
Se apresentassem o tamanho de efeito ou valores percentuais médios, já ajudaria um pouco. Mas, se você quiser aprender, densamente, porque o tamanho de efeito e valores relativos (percentual) não eliminam a necessidade de também sabermos o efeito absoluto, considere meu livro: LIVRO | Tomada de Decisão Baseada em Evidência.
Sem magnitude, não sabemos se o efeito é trivial ou relevante. Você poderá prescrever algo com baixa força de recomendação.
Eles até apresentam tamanhos de efeito por estudo, mas dentro de um material suplementar, fora do artigo. Mas não foi média com intervalo de confiança.
(3) Conclusões baseadas em evidências frágeis
Aqui já entrarei na parte principal, mostrando a fabricação da verdade do ACSM.
Várias recomendações que o ACSM faz são sustentadas por uma ou poucas revisões. Além disso, há vários estudos com qualidade muito baixa. Vou começar com um exemplo:
Eles concluem que o treinamento excêntrico com flywheel é melhor que o treinamento tradicional para hipertrofia muscular. Mas o estudo que usam para apoiar essa afirmação é a revisão de Maroto-Izquierdo (2017). Essa revisão incluiu apenas 9 estudos, o que já limita a robustez das conclusões. Mas a coisa piora:
Embora o título do artigo e partes do texto sugiram uma comparação direta entre flywheel training vs. treinamento de força tradicional, isso não ocorreu de forma limpa.
Na prática, a comparação do flywheel foi feita com grupos controle não treinados OU treinamento de força. Eles não discriminaram quantas comparações foram efetivamente com treinamento tradicional. Os estudos usados na revisão também comparam flywheel a grupos sem intervenção ou variações do próprio flywheel. Não dá para saber exatamente quantas comparações envolveram treinamento convencional (eu estimo que 3).
Dessa forma, o efeito combinado da metanálise mistura sedentário e treinados num mesmo grupo de comparação, o que impede afirmar que o flywheel seja superior ao treinamento tradicional em condições equivalentes.
Eu fiz um post sobre flywheel, e recomendo que leia para entender o que é o flywheel e o que efetivamente dá para esperar desse tipo de treinamento: Treinamento Isoinercial (Flywheel Training) é REALMENTE melhor?
O ACSM também disse nos métodos que só incluíram artigos com mais de 6 semanas de treino, mas o estudo do Maroto-Izquierdo (2017) permitiu artigos a partir de 4 semanas de treino. Mas piora mais ainda:
O ACSM fala, num dado momento, que não houve evidência suficiente para determinar se o excêntrico com flywheel era melhor que NENHUM treinamento, e para isso citaram uma revisão com 140 pessoas. Ora, como eles interpretam que o flywheel não consegue ser melhor que fazer 'nenhum treinamento', mas que o flywheel gera melhor resultado comparado ao treinamento convencional?
Não há lógica nisso. Se o flywheel fosse melhor que o treinamento convencional, nem precisaria fazer estudo do flywheel vs. não treinados.
Sei que, baseado nas evidências que temos até o momento, é muito forçosa essa afirmação do ACSM de que o flywheel é melhor que o treinamento convencional. E como é uma tecnologia específica, que está na moda, fico me questionando se não há conflitos de interesse não declarados.
Agora, voltando rapidamente lá no início, lembra que eles recomendaram para hipertrofia:
Tipo: Contrações excêntricas/sobrecarga
Volume: ≥10 séries/semana (relação dose-resposta)
Vou começar pelo ‘Contrações excêntricas/sobrecarga’:
Nos materiais suplementares, a gente vê 4 revisões incluídas pelo ACSM para chegarem nessa conclusão de que o treino excêntrico seria o melhor.
Em 3 dessas revisões, o ACSM concluiu assim: Insufficient evidence to determine (evidência insuficiente para concluir). Na quarta revisão, concluem assim: Sufficient evidence in favour (evidência suficiente a favor do treinamento excêntrico).
Pois bem, essa quarta revisão, que eles citam como sendo de Mcleod and Currier (2023), eu não encontrei citada nas referências da diretriz. Encontrei uma que é de Currier et al. (2023) e outra que é de McLeod et al (2024). Talvez seja uma dessas.
Nessa primeira revisão, de Currier et al. (2023), nem aparece a palavra excêntrico (eccentric). A outra, de McLeod et al (2024), em dado momento, diz:
O tipo de ação muscular (TR excêntrico vs. TR concêntrico) foi uma variável de TR impactante para a hipertrofia muscular (Tabela 3).
Mas, de 3 revisões incluídas, uma encontrou efeito pequeno a favor do excêntrico, outra tinha qualidade insuficiente e a outra não encontrou nada a favor do treino excêntrico.
Não há como o ACSM afirmar que o treinamento excêntrico é melhor baseado nisso.
Aí a gente começa a desconfiar da honestidade intelectual de certos autores, principalmente porque sabemos que um dos autores (Brad Schoenfeld) dessa diretriz do ACSM é também autor de uma revisão que mostrou leve resultado favorável ao excêntrico.
Além disso, ele também é um influencer de rede social que defende todos os resultados que publica. Humildade científica passa longe dele. E o autor que orientou os estudos Currier et al. (2023) e Mcleod et al. (2024), com as inconsistências que citei, é também o último autor dessa diretriz do ACSM.
E o ACSM não incluiu uma importante metanálise de 2025 (Lopes da Silva et al., 2025), a qual não encontrou diferença estatística entre excêntrico vs. concêntrico para hipertrofia muscular. Isso mudaria completamente as conclusões do ACSM. Depois, leia meu post: Qual é o Melhor Treino Para Hipertrofia?
A propósito, não encontrei estudos de 2025 em diante nessa diretriz do ACSM. Também não citaram uma metanálise que nós publicamos em 2016: Traditional vs. Undulating Periodization in the Context of Muscular Strength and Hypertrophy: A Meta-Analysis. Não vi razão para não ser incluída.
E, agora, sobre a afirmação de que o melhor para hipertrofia é: 'Volume: ≥10 séries/semana (relação dose-resposta)'.
O primeiro problema é não colocar limite superior. Dizer que ≥10 é melhor, faz o leitor acreditar que ‘quanto mais, melhor’. E não é verdade.
A relação entre séries e hipertrofia não é linear. Tenho alguns posts sobre isso, mas você pode começar por esse aqui: Hipertrofia Muscular: Quantas Séries Fazer? Dentro desse post, você terá acesso aos links de outros.
O segundo problema é apresentar isso de forma indiscriminada, porque para iniciantes conseguimos melhores resultados com <10 séries semanais.
Mas entrei nas revisões que o ACSM usou, para tentar entender de onde tiraram essa conclusão de que é melhor fazer mais que 10 séries semanais.
A primeira revisão incluída pelo ACSM é do tipo umbrela, de Bernárdez-Vázquez et al. (2022). O ACSM, baseado nessa revisão, concluiu: Sufficient evidence in favour (evidência suficiente a favor de >10 séries).
Mas essa revisão de Bernárdez-Vázquez et al. (2022) se baseou numa única revisão anterior, de Krieger (2010), para inferir sobre número de séries. E essa revisão de Krieger (2010) é uma aula de como fazer uma metanálise malfeita. Mas, pior que isso:
Não há nada nessa revisão que permita afirmar que fazer >10 séries seja melhor. Essa revisão só incluiu artigos com até 6 séries.
O autor observou que o tamanho do efeito aumentava conforme o número de séries subia: 1 série = 0,24; 2-3 séries = 0,34; 4-6 séries = 0,44. Mas, o autor não viu diferença estatística entre fazer 4-6 séries e 2-3 séries.
Outro problema é que o artigo não diz qual foi a frequência semanal de treino. Mas sei que os estudos incluídos na revisão não passam de 3 sessões/semana. A maioria envolve 2 vezes/semana. Como fazer 2-3 por sessão dará no máximo 6 a 9 séries/semana, e considerando que não houve diferença estatística comparado a fazer 4-6, então não se pode afirmar que fazer mais que 10 séries é melhor.
Mas, como disse, esse estudo de Krieger (2010) tem qualidade muito ruim. Não deveria estar nessa diretriz (sei que o Krieger é da panela do Brad).
Além disso, dos 8 artigos que Krieger (2010) incluiu, ele diz que apenas 2 fizeram mais que 4 séries por sessão. Então, 6 dos 8 artigos não passaram de 9 séries semanais. Enfim, absurdo usar isso para afirmar ‘Sufficient evidence in favour’ para >10 séries.
A diretriz do ACSM incluiu também a revisão de Baz-Valle et al., (2022), e a partir dela concluiu: Insufficient evidence to determine (evidência insuficiente para afirmar que >10 séries é melhor).
Essa revisão até sugeriu que fazer 12 a 20 séries seja melhor, mas especificamente para pessoas treinadas. Mas quando o ACSM diz que >10 séries semanais é melhor, não faz essa diferenciação entre treinados e destreinados. E sabemos que faz muita diferença.
O ACSM incluiu também a revisão de Raya-González (2019), publicada em espanhol. O ACSM concluiu com base nesse estudo: Some evidence in favour (alguma evidência a favor de >10 séries).
Mas esse estudo não afirma que fazer mais que 10 séries é melhor. Afirma no máximo que:
“em relação ao número de séries por exercício, observou-se que os níveis de hipertrofia eram mais altos em protocolos de treinamento que realizavam mais séries (3-5 séries) por exercício”.
Repare que fazer 3 séries por sessão dará no máximo 9 séries semanais, porque raramente há estudo que treina mais de 3 sessões/semana. Mas podemos supor que ficaria entre 6-15 séries semanais. Se fica entre 6 e 15, não dá para afirmar que o melhor é fazer >10.
Outra revisão incluída foi a de Schoenfeld et al. (2017), que é um dos autores dessa diretriz do ACSM. A conclusão deles a partir desse estudo foi: Sufficient evidence in favour (evidência suficiente a favor de >10 séries).
Entretanto, nesse estudo, não houve diferença estatística entre fazer >10 séries comparado a fazer <10 séries semanais. Houve apenas uma tendência (p=0,07).
E, quando se compara fazer '5-9 vs. >10 séries', o resultado do tamanho de efeito é virtualmente igual: 0,41 vs. 0,42. Em termos percentuais, deu, segundo eles, 7,2 vs. 8,6. E mais estranho ainda:
Os autores só incluíram 2 estudos com mais de 12 séries. Dizem no artigo:
“A escassez de dados que investigam volumes semanais de >12 séries impediu a análise de volumes de treinamento muito altos sobre resultados hipertróficos.”
E mais: eles juntaram destreinados e treinados na análise. E dos estudos com destreinados incluídos, só vi um que deu diferença estatística, que foi numa comparação entre fazer 9 vs. 3 séries semanais.
E o ganho para 9 séries foi na casa de 20% em 11 semanas de treino, mostrando que treinar menos que 10 séries semanais produz enorme efeito (raramente você encontrará ganho de 20% em 11 semanas com qualquer outro protocolo).
Ou seja, esse estudo do Schoenfeld et al. (2017) não ajuda na conclusão de que >10 séries é indiscriminadamente melhor (junta iniciantes e avançados). Então, como podem usar isso para concluir: Sufficient evidence in favour?
E quem conhece o Brad Schoenfeld, sabe que ele é um influencer pró alto volume de treino.
Incluíram também o estudo de Krieger (2010), do qual já falei previamente. E apesar de ser um estudo cheio de falhas, concluíram: Some evidence in favour (alguma evidência a favor de >10 séries).
E esses foram os estudos incluídos pelo ACSM para recomendar que fazer mais de 10 séries é melhor para hipertrofia.
Acho que agora, juntando tudo que falei, já dá para você entender por que no meu título estou afirmando que o ACSM está ‘fabricando verdade’.
Eu poderia citar muitos estudos que mostram que iniciantes que treinam menos de 10 séries semanais conseguem resultado igual ou superior a fazer mais de 10 séries. Já mostrei isso em post anterior (comece por aqui). Mas, para não deixar de citar algo, segue esse caso aqui:
Pinto et al. (2025) mostraram que homens sem experiência em treinamento de força (~24 anos) conseguiram 17–21% de espessura no peitoral maior fazendo apenas 2 séries semanais.
Isso mesmo que você leu: 2 séries por semana. Veja meu post: NÃO é Preciso Treinar Mínimo de 3 Vezes por Semana! para entender isso.
Se você conseguir achar um estudo que, em menos de 12 semanas, tenha encontrado ganho de 17–21% de espessura muscular no peitoral maior, em iniciantes, fazendo mais de 10 séries semanais, pode me enviar o artigo que te presentearei com algo de valor.
Mas há ainda mais problemas. Se você é guerreiro/a, continue aí:
(4) Generalizações indevidas
Eles concluem que carga (intensidade) “não afeta” a hipertrofia. Mas falharam na comunicação. Na verdade, para intensidades >30% (maioria dos estudos fica entre 30% e 80%) realmente não há diferença de hipertrofia se o volume de treino for igualado. Há muitos estudos confirmando isso.
Mas isso não permite afirmar que cargas muito baixas gerarão bons resultados. Muito provavelmente você não conseguirá boa hipertrofia levantando o peso de uma caneta, mesmo que faça centenas de repetições. Há, portanto, extrapolação além da evidência disponível.
Aliás, reflitamos: se o volume é dado quase sempre por ‘repetições x carga’, como eles afirmam que o volume é importante para hipertrofia, mas a carga não? Se fosse verdade, poderíamos considerar volume apenas como repetições. E isso só confirma que erraram na comunicação.
(5) Conceituações indevidas que enviesam a interpretação
Eles afirmam que o ‘tempo sob tensão’ não é importante para hipertrofia. Mas aqui eles cometeram um terrível erro. O que eles chamam de tempo sob tensão é, na verdade, cadência do movimento. São conceitos diferentes.
Cadência realmente não é uma variável que afeta a hipertrofia muscular, veja meu post: A Cadência do Exercício de Musculação NÃO Importa.
Mas ‘tempo sob tensão’ é outra coisa. Suponha que você realize flexões de cotovelo (roscas) com 10 kg. Se você fizer lentamente (ex: 4:4 s), fará menos repetições até a falha comparado a fazer rapidamente (1:1 s).
Embora o tempo sob tensão de cada repetição seja diferente, o tempo sob tensão total até a falha muscular será similar, porque quem faz na cadência mais rápida, faz mais repetições que na cadência lenta. Então, o tempo entre repetições não é a mesma coisa que tempo sob tensão total.
Se o tempo sob tensão não fosse importante para hipertrofia, como o treinamento isométrico causaria hipertrofia? E treino isométrico causa tanta hipertrofia quanto treino dinâmico.
Aliás, uma excelente revisão sistemática sobre isso é a de Oranchuk et al. (2019), que o ACSM citou nas referências, mas não apareceu no documento (vá entender).
O ACSM desprezou totalmente o treino isométrico. E eu defendo que o tempo sob tensão é uma variável fundamental para hipertrofia muscular. Acho que é no meu post Hipertrofia: Você Está Calculando Errado o VOLUME que eu faço uma boa defesa disso.
(6) Mistura de populações
O ACSM não faz distinções importantes entre jovens e idosos, treinados e não treinados, entre outros. Eles afirmam que a maioria dos estudos foi com destreinados, mas quem lê o trabalho corre o risco de sair interpretando que as conclusões valem para todos. E não é assim.
(7) Heterogeneidade das medidas
Embora a diretriz tenha se preocupado em incluir metanálises de, segundo eles, bons trials (tenho críticas aqui também), não vi preocupação com a qualidade das medidas.
Ou seja, medida com ressonância magnética não é a mesma coisa de medidas de ultrassom modo A (veja meu post: Como Medir Massa Muscular? Há jeito fácil e confiável).
(8) Uso da “Não Diferença” como evidência de ausência de efeito
Em vários pontos, a lógica foi “não houve diferença, então a variável não importa”.
Isso é metodologicamente incorreto. Talvez não tenha havido diferença porque ainda falta poder estatístico, ou se basearam em poucas e frágeis revisões, ou devido a alta variabilidade, ou desenhos de estudos não ideais.
Por exemplo, a comparação 'máquinas vs. peso livre' não deu diferença, mas teve apenas uma revisão incluída, com 5 estudos.
A comparação entre exercícios 'monoarticulares vs. multiarticulares' provavelmente considerou apenas volume muscular total, e não por região muscular.
Além disso, dependendo da comparação (ex.: agachamento com peso livre vs. cadeira extensora para músculos biarticulares), sabemos que a diferença é enorme. Depois leia meu post: Treinar com a musculatura alongada gera mais hipertrofia muscular?
De fato, concordo que há muitas variáveis citadas pelo ACSM que, pelo menos até o momento, não se mostram importantes para aumentar a massa muscular (o que não significa que não sejam importantes para a gestão do treino) se o volume de treino for igualado.
São o caso da frequência semanal (há muitos estudos), treinar até falha muscular ou não (aqui é preciso cuidado: há poucos estudos com avançados, e a distância dessa falha tem variado bastante), treino com oclusão vascular e tipo de periodização.
Citam também 'treinamento de potência' e 'ordem dos exercícios', mas para essas duas variáveis temos poucos estudos.
Mas, sobre algumas variáveis que o ACSM diz que os dados foram insuficientes para fazer inferências, vale a pena eu deixar alguns comentários:
Máquinas vs. peso livre – de fato, eles encontraram apenas uma revisão, e que certamente não deve ter dado conta da complexidade disso. Recomendo meu post: O Que é Melhor na Musculação: Pesos, Máquinas ou Elásticos?
Exercícios multiarculares vs. monoarticulares – dizem que os dados são insuficientes, mas não é bem assim: temos boas evidências de que não se tratam de coisas similares.
Os exercícios agachamento e leg press, por exemplo, não geram as mesmas magnitudes de hipertrofias que as cadeiras extensora e flexora para os músculos reto femoral e isquiotibiais, respectivamente.
O problema é que essa diretriz do ACSM só incluiu revisões com metanálises, e com isso deve ter perdido boas evidências. Por exemplo: as duas revisões que incluíram sobre isso não devem ter se preocupado com o sítio anatômico (região muscular) dessa hipertrofia.
Amplitude de movimento – não consigo concordar com a diretriz, e talvez o motivo seja também o fato de só terem incluído revisões.
Há vários estudos mostrando que treinar com musculatura mais alongada (que envolve maior amplitude de movimento), ou por toda amplitude de movimento, são melhores que treinar com musculatura encurtada (menor amplitude de movimento). Veja meu post Treinar Com a Musculatura Alongada Gera Mais Hipertrofia.
Estrutura de séries – interpretei como técnica de treinamento. Mas aqui penso que nossa incerteza é pequena, porque realmente não há diferença entre as diferentes técnicas quando o volume é igualado. Veja meu post: Técnicas Avançadas (SÓ QUE NÃO!) Para Hipertrofia Muscular.
Intervalo entre séries – concordo que precisamos de mais estudos com qualidade. Há, aliás, uma revisão que sugere vantagem para o maior tempo de intervalo, mas tem mais falhas que acertos. Veja no meu post Hipertrofia Muscular: O Intervalo Entre Séries É MENOS Importante Do Que Você Pensa.
Treinamento concorrente (concorrência de diferentes modalidades; ex: aeróbio seguido de treino de força, ou vice-versa) – realmente precisamos de mais evidências, embora, penso, que nossa incerteza é pequena sobre afirmar que não há concorrência quando o volume de treino é baixo. O problema é quando falamos de perfil atlético.
Sobre as variáveis seleção de exercício, horário do dia, autorregulação do treino e resistência variável, eu concordo que realmente precisamos de mais e melhores evidências. E incluo aqui as variáveis ordem dos exercícios e treinamento de potência.
Conclusão:
Obviamente, na comparação entre treinamento de força vs. nenhum treinamento, teremos hipertrofia apenas a favor dos treinados (isso vale para qualquer tipo de resistência). E isso, claro, foi confirmado pela diretriz.
A nova diretriz do ACSM tem avanços metodológicos em comparação ao diretriz de 2009 (maior volume de evidência, melhor estrutura analítica, maior rigor científico), mas, como mostrei, há problemas sérios (e não poderia ter), que merecem atenção dos leitores, para que não saiam perpetuando verdades fabricadas.
Há risco real dessa diretriz produzir interpretações e prescrições equivocadas, causando desserviço à nossa área. Não recomendo essa diretriz como base única para prescrição.
E se você deseja aprender a julgar a qualidade metodológica de artigos científicos e a força da recomendação dos resultados, adquira meu livro:
Tomada de Decisão Baseada em Evidência: como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde.
Em tempos de desinformação massiva e de tantos falsos experts, distinguir evidências reais das falsas é tanto emancipador quanto vital. Esse livro ensina a julgar a qualidade da evidência e a força da recomendação de qualquer artigo científico da área da saúde.
O livro oferece um sistema estruturado e didático, com:

Modelo de Julgamento: um sistema quantitativo de notas (0 a 100%) em paralelo a um sistema qualitativo (muito baixo, baixo, moderado, alto e muito alto).
Separação Estruturada: um framework claro para avaliar o nível de evidência com base em 13 quesitos metodológicos, e o grau de recomendação com base em 9 quesitos formais.
Ferramenta Prática (Checklist/Planilha): O conteúdo está associado a uma planilha gratuita que orienta no julgamento da qualidade da evidência e na força da recomendação (e ainda serve como checklist).
Script para Inteligência Artificial: fiz um script para a IA ChatGPT poder julgar o nível de evidência e o grau de recomendação. Embora a IA não deva substituir o julgamento humano final, ela facilita a compreensão e diminui a chance de erro humano, pois o script foi projetada para que a IA explique a razão das notas dadas a cada quesito.
E se você quiser ver o uso prático, passo a passo, da aplicação do meu livro, acesse o post: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos.
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Por último, em tempos de escritas por inteligência artificial (ex: chatGPT e bard), vale dizer que essa postagem NÃO usa isso. É feita exclusivamente a partir da minha interpretação das leituras acumuladas que tenho. E se quiser citar essa postagem, pode ser mais ou menos assim:
Lunz, W. Nova Recomendação do ACSM (2026) Para Hipertrofia e Força Muscular: Uma Fábrica de Verdades. https://www.wellingtonlunz.com.br/post/vergonhosa-nova-diretriz-do-acsm-2026-para-hipertrofia-e-forca-muscular-uma-fabrica-de-verdades: Ano: 2026 Link: [Acessado em __.__.____].
Até o próximo post!

Autor: Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br. É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.
