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BIMAGRUMAB: Medicamento Para Obesidade Que Reduz GORDURA e Aumenta MASSA MAGRA

  • Foto do escritor: Blog Prof. Wellington Lunz
    Blog Prof. Wellington Lunz
  • 29 de ago. de 2023
  • 7 min de leitura

Atualizado: 5 de dez. de 2025

Resumo: o fármaco bimagrumab (ou bimagrumabe), que é um anticorpo monoclonal, reduziu 20% de gordura corporal, aumentou 3,6% da massa magra e melhorou a sensibilidade à insulina de diabéticos. Esse fármaco atua bloqueando o receptor da ativina (ActRII), que é a mesma via pela qual age a miostatina. Ao inibir essa via, promove ganho de massa muscular e perda de gordura. Um estudo mais recente, chamado BELIEVE, apresentou resultados ainda mais impressionante. É muito provável que, em breve, teremos uma revolução farmacológica no tratamento da obesidade.



Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)


Em 2021, Heymsfield e Cols publicaram na prestigiada revista JAMA um estudo clínico de fase 2 envolvendo o medicamento bimagrumab, da farmacêutica Novartis.

Como nos últimos anos eu não tenho dedicado muita leitura relacionada a tecido adiposo, esse artigo (e outros envolvendo o mesmo medicamento) passou batido por mim. Mas os resultados desse estudo, que só conheci recentemente, chamam e merecem atenção:

Após 1 ano de intervenção, o grupo que recebeu o medicamento bimagrumab reduziu ~20% de gordura corporal, e, ao mesmo tempo, aumentou a massa magra (~3,6%) e melhorou a sensibilidade à insulina.

Diferente de outros medicamentos, o mais atraente são os benefícios concomitantes de perda de gordura e ganho de massa magra. Daqui a pouco explicarei melhor o estudo.

E se você ficou impressionado com esses resultados, você precisa depois ler os resultados do estudo BELIEVE (nesse post aqui), apresentado no congresso da American Diabetes Association (ADA) em junho de 2025. O estudo BELIEVE uniu o bimagrumab com outra droga. Tudo sugere que será uma revolução no tratamento da obesidade.

Mas, voltando ao bimagrumab, o que mais me atraiu foi o mecanismo de ação desse medicamento. O qual me trouxe insights importantes, os quais compartilhei no post O que EMAGRECE é o músculo, estúpido! (mas deixe para ler depois que concluir a leitura desse).

O bimagrumab é um anticorpo monoclonal humano que se liga ao receptor tipo II da ativina (ActRII). Talvez esse receptor lhe seja estranho, mas é nele que está meu interesse. Isso porque é por esse receptor que a miocina miostatina age inibindo a hipertrofia muscular.


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Então, se um medicamento inibe esse receptor, podemos esperar ganho de massa muscular, como de fato ocorreu no estudo que citei. Mas o que impressiona mesmo é a alta redução de gordura corporal.

Por que a redução de gordura corporal foi mais expressiva que o ganho de massa magra?

Muito bem, vou explicar: mas, no presente post, vou apenas falar desse estudo de Heymsfield et al. (2021), pois os resultados importam muito para o post O que EMAGRECE é o músculo, estúpido!, que é onde está a resposta completa a questão anterior.

Como eu disse, é um estudo clínico de fase 2. Esse tipo de estudo é feito para determinar a eficácia e segurança no grupo alvo, que nesse caso foi de diabéticos tipo 2 com sobrepeso e obesidade.

Os pacientes elegíveis (75 no total) foram randomizados em uma proporção de 1:1 para receber bimagrumab ou placebo via infusão intravenosa, uma dose mensal, por 1 ano (48 semanas). E aqui já está algo bem interessante: Apenas uma dose por mês.

A alocação dos pacientes foi aleatória. Ambos os grupos receberam aconselhamento dietético. A gordura corporal total foi medida por DEXA. Deixe-me reforçar e ampliar a descrição dos resultados:

Ao final do estudo (semana 48) a gordura corporal diminuiu 20,5% (7,3 kg) no grupo bimagrumab e 0,5% no grupo placebo. Como a média nem sempre caracteriza bem os resultados, vale destacar que mais de 75% dos pacientes (vs. 10% do grupo controle) que tomaram o medicamento perderam mais de 15% de gordura corporal. Portanto, o resultado não foi afetado por dados extremos.

Um problema é que não apresentaram as perdas das gorduras visceral, subcutânea e hepática usando a mesma unidade (variou em %, L, kg), o que me impediu saber onde ocorreu a maior perda. Era uma informação importante, pois eu queria saber se realmente essa perda toda de gordura veio apenas desses 3 sítios.

Houve também perda de 9 cm de circunferência da cintura em favor da droga, e praticamente nada no grupo controle. Não houve mudança significativa da relação cintura-quadril (RCQ), fortalecendo a indicação de que a medida da cintura vale muito mais que a RCQ (Ross et al., 2020).

Na semana 48, o grupo bimagrumab induziu ganho de 3,6% (mas foi >5% para homens) de massa magra em comparação com -0,8% no grupo placebo. Houve também resultados significativos para sensibilidade à insulina, o que é muito importante para diabéticos e para a prevenção da diabetes.

Treze por cento dos pacientes descontinuaram por efeitos adversos, mas a perda total da amostra foi de 23%. Os sintomas mais frequentes no grupo bimagrumab foram diarreia e espasmos musculares (41% dos pacientes... é bastante coisa! Os autores relatam que isso ocorreu quase que exclusivamente na primeira dose). Vários outros sintomas foram semelhantes entre os dois grupos.

Entretanto, 8 eventos adversos em 5 pacientes levaram à descontinuação desses pacientes, que eram todos do grupo bimagrumab. Pancreatite ocorreu em 1 paciente, infecção por helicobacter pylori ocorreu em 1 paciente, espasmos musculares em 2 pacientes e 1 paciente apresentou aumento da lipase sérica (relatado duas vezes), somado a dor abdominal superior e colelitíase.

Pelo que entendi, a droga não pôde ter eficácia julgada pela FDA (U.S. Food and Drug Administration) porque parece que os critérios da FDA consideram a perda de peso corporal, e não a perda de gordura corporal. E essa foi uma reclamação dos autores.

Embora a reclamação pareça justa (se for verdade), os principais autores também têm conflito de interesse relacionado ao medicamento (ex: patente) e com a farmacêutica Novartis (que financiou o estudo).

Para concluir, os resultados são bem interessantes, em especial pela concomitante perda de gordura com ganho de massa muscular. E ainda não há estudo somado com treinamento físico. O que poderia acontecer quando somado ao treinamento de força?

É provável que isso seja feito em breve. E devo lembrar que em torno de 25% a 30% de estudos de fase 2 não chegam a ter aprovação ao final das 4 fases.

E, importante, não estou fazendo propaganda para o medicamento e para a farmacêutica. Não tenho conflito de interesse. Como disse, meu interesse principal no estudo tem a ver com o mecanismo (via do ActRII).

Então, agora, você está pronto/a para ler o post O que EMAGRECE é o músculo, estúpido!, onde apresento argumentos para defender a seguinte tese:

A melhor forma de reduzir gordura corporal via treinamento de força não é gastando muita energia durante o exercício, mas aumentando a massa muscular’.

E essa tese tem a ver com o mecanismo de ação do bimagrumab.

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Acesse https://www.wellingtonlunz.com.br/blog para mais posts. Você também pode se inscrever na Newsletter para receber novos posts.

E se quiser citar essa postagem, pode ser mais ou menos assim:

Lunz, W. Bimagrumab: Medicamento para obesidade que reduz gordura e aumenta massa magra. Ano: 2023. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/bimagrumab-medicamento-para-obesidade-que-reduz-gordura-e-aumenta-massa-magra. [Acessado em __.__.____].



REFERÊNCIAS:

1 - Heymsfield SB, et al. Effect of Bimagrumab vs Placebo on Body Fat Mass Among Adults With Type 2 Diabetes and Obesity: A Phase 2 Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open 2021;4:e2033457. https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2020.33457.

2 - Ross R, et al. Waist circumference as a vital sign in clinical practice: a Consensus Statement from the IAS and ICCR Working Group on Visceral Obesity. Nat Rev Endocrinol 2020;16:177–89. https://doi.org/10.1038/s41574-019-0310-7.



Autor: Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br. É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.


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