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Prof. Dr. Wellington Lunz
Professor de Universidade Federal (UFES)
Doutor em Ciências Fisiológicas
Mestre em Ciências da Nutrição
Bacharel e Licenciado em Educação Física

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- Estresse Tensional ou Mecânico Causa Hipertrofia Muscular?
Resumo : entre os três mecanismos clássicos da hipertrofia muscular — estresse tensional, estresse metabólico e microlesões — somente o estresse tensional (ou mecânico) é sustentado por boas evidências científicas como mecanismo direto. A mecanotransdução explica como o músculo converte tensão em sinal anabólico, ativando vias como mTOR e rpS6, fundamentais à síntese proteica. Estudos ( ex: Rindom et al., 2019 ) demonstram que tanto a tração quanto a contração muscular ativam essas vias, e que a ativação depende da interação actomiosina. Não é o peso absoluto que gera hipertrofia, mas sim a experiência de tensão celular. Prof. Dr. Wellington Lunz No post anterior intitulado ‘ Microlesões causam ou não causam hipertrofia muscular? ’, eu apresentei evidências que permitem inferir que microlesões musculares NÃO são um dos mecanismos de explicação da hipertrofia muscular esquelética. Também já fiz um post ( este aqui ) mostrando que o estresse metabólico NÃO é aparentemente um mecanismo direto para hipertrofia muscular. Embora os mecanismos de explicação da hipertrofia muscular são bem mais abrangentes e sofisticados, dos três mecanismos classicamente sugeridos como explicadores da hipertrofia muscular, que são o estresse tensional , estresse metabólico e microlesões , apenas o estresse tensional ou estresse mecânico parece ser realmente um mecanismo direto. Hoje mostrarei isso a você. A mecanotransdução é um fenômeno celular bem conhecido. Há, por exemplo, canais iônicos sensíveis ao estresse tensional ( Roberts et al., 2023 ), e conhecemos bem o fenômeno da mineralização óssea induzida por estresse mecânico. Também sabemos que músculos não submetidos a estresse mecânico atrofiam rapidamente ( ex: acamados, astronautas ). Outra forte evidência em favor do estresse tensional é o fato do 'estresse de tração por alongamento ' também causar hipertrofia muscular. Em alguns modelos animais ( ex: aves ) é algo muito impressionante ( Antonio & Gonyea, 1993 ). Aliás, é também um fenômeno natural, pois ossos em crescimento tracionam músculos, e assim induzem aumento do número de núcleos e sarcômeros em série ( Roberts et al., 2023 ). Clique aqui e conheça meu novo livro . Benefícios : (1) Maior autonomia e competência no julgamento da evidência científica; (2) Maior segurança nas decisões pessoais e profissionais; (3) Maior poder contributivo para equipes multidisciplinares; (4) Maior valorização dos pares, clientes e pacientes. Prof. Dr. Wellington Lunz É verdade que a adaptação hipertrófica muscular induzida por estresse de tração por alongamento é diferente da induzida pelo estresse de tensão gerada por contração muscular. A hipertrofia muscular induzida por alongamento é predominantemente 'em série' ( longitudinal; aumento no comprimento ), e a hipertrofia muscular por contração é principalmente 'em paralelo' ( radial; aumento na largura ), exceto aquela derivada do treinamento excêntrico. O treinamento excêntrico é, de fato, um caso a parte, pois, além da tração ativa, envolve maior tração passiva em comparação ao treinamento concêntrico. Considerando os protocolos de alongamentos que habitualmente prescrevemos para humanos, a hipertrofia muscular induzida por tração de alongamento é pequena ou nula ( Every et al., 2022 ; Wadhi et al., 2022 ), mas a hipertrofia induzida por estresse contrátil, seja no treinamento concêntrico ou excêntrico, é muito significativa ( sei que você nem me cobrará referências científicas ). Seja como for, tanto o estresse mecânico de tração quanto o contrátil induzem hipertrofia. Os mecanismos moleculares envolvidos nessas adaptações muito provavelmente não são exatamente iguais, mas é assunto para outro momento. Mas, você, cético, apesar de meus argumentos até aqui, poderia me perguntar: “ Mas há prova direta de que a tensão gerada pela interação actomiosina promove hipertrofia? ” É uma ótima pergunta, e difícil de responder cientificamente sem ruídos. Isso porque a hipertrofia muscular não é um evento agudo, mas crônico. Pode ser local, mas sofre influência sistêmica. Enquanto fenômeno, ocorre no espectro do invisível. Enfim, muitas complicações. Mas vou te apresentar um estudo muito legal, que aumenta a força dos meus argumentos. Antes, para você entender melhor o estudo, eu preciso esclarecer algumas coisas. Os mecanismos moleculares relacionados à hipertrofia são complexos e não são totalmente conhecidos. Mas, pontual e resumidamente, há evidências em modelo animal de que a interação actomiosina ativa a via molecular mTOR ( mammalian target of rapamycin ). A mTOR é uma proteína quinase serina/treonina claramente associada a hipertrofia muscular. A mTOR possui dois complexos proteicos ( TORC1 e TORC2 ), e falarei dela quando eu abordar a cascata hipertrófica. Ahhh... e não confunda mTOR com MTor (l eia isso aqui depois ). A segunda é só picaretagem mesmo. A mTOR, por sua vez, é responsável por ativar várias moléculas, e uma delas é a proteína ribossomal S6 ( rpS6 ), que está envolvida na tradução proteica. Vamos agora ao estudo. Foi realizado por um grupo de pesquisa dinamarquês ( Rindom et al., 2019 ). Os pesquisadores fixaram músculos de ratos num aparato que permite ajustes em frações milimétricas. Inicialmente eles mostraram que tanto a tração de alongamento quanto a tensão de contração ativaram igualmente e significativamente as vias anabólicas mTOR e rpS6. Para saber se essa sinalização anabólica dependia da interação 'actina-miosina' ( actomiosina ), eles usaram uma droga que bloqueava a ATPase miosínica, impedindo assim a tensão induzida pela contração celular. E esse bloqueio foi capaz de impedir a ativação da mTOR e rpS6 decorrente da contratilidade, mas não impediu a ativação delas pela tensão de alongamento. Ou seja, essa parte do experimento mostrou que a ativação da mTOR e da rpS6 depende de tensão, seja de alongamento ou contrátil. Na sequência eles mostraram que a estimulação elétrica não ativou as vias anabólicas quando a interação actomiosina foi bloqueada. Ou seja, a ativação elétrica isoladamente não estimula a mTOR e rpS6. E aqui vale um parêntese: Houve uma época que se acreditava que era a estimulação elétrica que causava hipertrofia ( via fatores neurotróficos ). Isso nunca foi provado, e esse estudo ajuda a apagar esse fogo. Voltando ao estudo: Depois os pesquisadores quiseram entender se a mTOR e rp6S aumentavam à medida que a tensão de contração aumentava. Inicialmente compararam cargas progressivas, mas com tempo de tensão fixado. E viram que quanto maior era a carga, maior era a sinalização da mTORC e rpS6. Também compararam diferentes tempos de tensão, mas com carga fixada ( mesma carga ). E aí surgiu um resultado inicialmente inesperado por mim. Eles viram que o tempo de tensão não foi importante para amplificar a ativação da mTORC e rpS6. Ou seja, a carga (peso) foi importante, mas o tempo de tensão não. Entretanto, é preciso uma ponderação sobre isso. O experimento contrátil envolvia várias séries com várias repetições ( ex: 10 séries de 6 reps ). Ou seja, não dá para excluir totalmente o efeito do tempo de tensão, uma vez que cada repetição adicional significa maior tempo sob tensão. O que o estudo permite afirmar é que depois de um certo tempo de tensão já não há efeito adicional para essas vias anabólicas estudadas. Mesmo no experimento com carga progressiva e tempo fixado, não tem como eliminar totalmente o tempo de tensão, pois toda contração exige um certo tempo. Há um estudo ( Nóbrega et al., 2023 ) de um importante grupo de pesquisa brasileiro, feito em humanos, que mostrou que a progressão do volume de treino pela variável ‘peso’ ( carga ) gerou maior slope ( ganho ) de hipertrofia que a progressão pelo ‘número de repetições’ ( mais reps = maior tempo de tensão ). Esse estudo mostrou que tanto ‘peso’ quanto ‘tempo de tensão’ produziram ganhos de hipertrofia, embora, como disse acima, a progressão com ‘peso’ produziu resultados melhores. Mas o tempo de tensão ( via mais reps ) também induziu hipertrofia significativa. A importância do tempo de tensão para hipertrofia muscular humana também já foi confirmada num outro excelente estudo feito por cientistas brasileiros ( Martins-Costa et al., 2022 ) e em vários estudos envolvendo isometria ( ver revisão de Oranchuk et al., 2019 ). Para você entender melhor essa história da importância do tempo de tensão, te convido a ler depois um outro post meu intitulado ‘ Hipertrofia: Você está calculando errado o VOLUME ’. Mas há uma questão bastante intrigante para a gente discutir: É, de fato, a maior carga ( peso ) ou é a maior interação actomiosina dentro do miócito que induz hipertrofia muscular? Certamente você que está me lendo agora, se for da área de treinamento de força e hipertrofia, sabe que temos muitos estudos mostrando que treinar entre 20 e 30 repetições máximas ( carga leve ) gera hipertrofia similar a treinar com 3 a 12 repetições máximas ( carga pesada ). O Prof Wellington Lunz apoia e recomenda o Instituto Afficere. Agende sua consulta nutricional. Se a carga em si fosse o mais determinante para o ganho de massa muscular, treinar com cargas maiores deveria gerar mais hipertrofia que treinar com cargas menores. Mas isso não acontece nem mesmo quando se treina com carga máxima ( Dankel et al., 2017 ; Mattocks et al., 2017 ). Então isso acaba nos levando à hipótese de que a quantidade e o tempo de interação actomiosina são mais relevantes para induzir a adaptação hipertrófica. E teremos o máximo de interação actomiosina quando o máximo de células for recrutada, e cada uma dessas células recrutadas trabalhar no seu máximo potencial. Há uma coisa que muita gente não sabe. Quando uma célula muscular é recrutada ( acionada ), isso não significa que ela trabalhará no máximo potencial dela. Ou seja, recrutar uma célula não significa dizer que ela terá o máximo de interação actomiosina possível. A gente sabe que uma forma de fazer a célula gerar mais força é aumentando a frequência de estimulação neural ou elétrica, pois isso aumenta a liberação de cálcio intracelular que, por sua vez, aumenta a força contrátil ( MacDougall e Sale, 2014 ). É fácil imaginar que teremos muitas células recrutadas quando enfrentamos muita carga, e que essas células terão muita interação actomiosina. Então por que carga máxima não causa tanta hipertrofia assim? Uma resposta razoável para isso é que não basta apenas recrutar muitas células e ter muita interação actomiosina. Como já disse, o tempo de tensão é também bastante importante. Embora o recrutamento celular seja alto com carga máxima, o tempo de tensão é baixo. Mas creio que uma questão ainda mais intrigante que você poderia me fazer é: ‘ Como imaginar o máximo ( ou perto disso ) de interações actomiosina quando exercitamos com carga baixa? Nesse caso o tempo de tensão é alto, mas as interações actomiosina seriam suficientes? Minha hipótese ( e não sou o único ) é: " Aparentemente o exercício com carga baixa só induz hipertrofia significativa quando feito até a exaustão ( Lasevicius et al, 2022 ). Exercícios com carga baixa feitos até a falha exigem mais do sistema anaeróbio, acidificando o músculo. Isso será percebido por metaborrecepetores, que pelas vias aferentes III e IV irão sinalizar ao sistema nervoso central a necessidade de maior recrutamento de unidades motoras e maior taxa de disparo neural ( MacDougall e Sale, 2014 ). Com isso teríamos mais miócitos trabalhando e mais interação actomiosina dentro de cada célula ". Gosto sempre de lembrar que um miócito muscular esquelético produz, em média, 532 a 549 micronewtons de força. Claro que isso varia bastante ( variação > 208 micronewtons ) ( Wackerhage et al., 2019 ), mas de qualquer forma está na casa dos micros ou milinewtons. Isso significa que um miócito não precisa de muita carga para trabalhar no seu máximo potencial. Gosto de uma analogia que frequentemente cito em aula: “ Imagine 10 pessoas adultas segurando um piano de 200 kg. Então temos que cada pessoa fará ~20 kg de força. Obviamente que isso está longe da força máxima de cada pessoa. Cada pessoa está, portanto, exercendo força submáxima. Agora suponha que uma dessas pessoas fadigue e não consiga mais continuar segurando o piano. O peso ( 200 kg ) ficará para as outras 9 pessoas, e agora será de ~22,2 kg por pessoa. Suponha que mais uma pessoa fadigue. Então as 8 pessoas restantes terão que fazer 25 kg de força. E assim por diante ”. O Prof Wellington Lunz apoia e recomenda o Instituto Afficere. Agende sua consulta nutricional. Se a gente pensar em ‘células musculares’ segurando ‘pesos’, um cenário como dessa analogia acima obrigaria as células não fadigadas fazerem cada vez mais força, apesar do peso externo continuar o mesmo. E como uma célula poderia ativamente fazer mais força? Isso só parece possível exatamente com mais interação actomiosina. É claro que pensando num organismo segurando um peso, a estratégia seria tanto chamar mais unidades motoras ( “mais gente para segurar o piano” ) quanto fazer progressivamente mais força à medida que células vão fadigando ( mais interação actomiosina em cada célula ). Mas tudo isso que disse até agora é para argumentar que é a experiência de tensão de cada célula muscular esquelética que parece fundamental para sinalizar para a hipertrofia muscular. Isso é mais importante que a carga externa ( peso ) absoluta. Como mostrei na analogia anterior, essa experiência de tensão celular não precisa de uma carga absurdamente alta. Portanto, não precisamos treinar com carga máxima para isso ocorrer. No corpo humano estamos nos referindo a um coletivo de células, e não células isoladas. E você ainda, elogiosamente curiosa/o, poderia me questionar: ‘ Como exatamente essa maior tensão gerada pela interação actomiosina sinaliza para hipertrofia muscular? ’ Tenho duas hipóteses: (1) a clivagem do ATP pela ATPase miosinica gera ao mesmo tempo contração e sinalização para hipertrofia muscular; (2) a tensão gerada é percebida por mecanossensores ( e talvez outros ), que sinaliza para a cascata hipertrófica. E no próximo post eu falarei exatamente dos sensores relacionados à sinalização da hipertrofia muscular ( e não são apenas os mecanossensores ). Então é isso amiga e amigo... Obrigado por acompanhar até aqui. E se você gostou, compartilhe com colegas e amigos/as ou em suas redes sociais . E quem quiser receber as novas postagens deste Blog, basta clicar aqui para se inscrever na Newsletter . E, como habitual, em tempos de escritas por inteligência artificial ( ex: chatGPT e Gemini ), vale dizer que essa postagem não usa isso... é feita exclusivamente das minhas leituras e interpretações ao longo da minha trajetória. E se quiser citar este post, pode ser mais ou menos assim: Lunz, W. Estresse tensional ou mecânico realmente causa hipertrofia muscular? Ano: 2024. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/estresse-tensional-causa-hipertrofia [Acessado em __.__.____]. Clique aqui e acesse videoaulas no ' Canal Prof. Wellington Lunz'. Acesse outras postagens do blog : Treinar com a musculatura alongada gera mais hipertrofia muscular? Lamento, mas SUPLEMENTOS servem para praticamente nada. Por que devemos aumentar a massa muscular? Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . Tem se dedicado em transmitir conhecimentos baseados em evidências em diferentes áreas do conhecimento (ex: hipertrofia muscular, treinamento de força, musculação, fisiologia do exercício, flexibilidade). É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Atualmente é Professor Associado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Contato pelo site ou e-mail: welunz@gmail.com.br
- Hipertrofia Muscular: Como Classificar?
Resumo : muitos classificam hipertrofia muscular como sarcoplasmática e miofibrilar — uma distinção repetida há décadas, mas sem comprovação científica ( Haun et al., 2019; Roberts et al., 2020 ). Proponho uma classificação mais abrangente, associada ao componente estrutural (convencional, miofibrilar, sarcoplasmática) e ao componente temporal (aguda, transitória, crônica). Se você deseja compreender as diferenças entre hipertrofia convencional, sarcoplasmática, miofibrilar, aguda, transitória e crônica, então esse post é para você. Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Quem me acompanha por aqui já sabe que estou escrevendo um livro de ‘hipertrofia muscular esquelética ( HME )’. E enquanto vou escrevendo, vou compartilhando as mesmas ideias aqui no Blog. E uma coisa que precisarei fazer no livro é classificar a HME. Eu não precisaria fazer isso se fosse algo simples. Se, por exemplo, o que lhe desse causa fosse uma coisa só; se seu comportamento ao longo do tempo não variasse. Mas não é o caso, e, por isso, precisa de classificação. E há uma coisa que eu desejo há tempos, que é fazer é uma sequência de posts assim: ‘Primeiro perguntar ao ChatGPT questões da nossa área, e depois avaliar e discutir o quanto a resposta dessa inteligência artificial se afasta da realidade científica.’ Ainda não farei essa sequência, mas neste post eu resolvi brincar com isso. Eu perguntei ao ChatGPT o seguinte: ✔️ Quais são os tipos de hipertrofia muscular? A resposta do ChatGPT foi basicamente classificar em sarcoplasmática e miofibrilar . E ele ainda afirmou que a ‘hipertrofia sarcoplasmática’ é induzida por muitas repetições e pouca carga, e a ‘hipertrofia miofibrilar’ é induzida por muita carga e poucas repetições. Embora isso seja repetido há décadas na nossa área, trata-se de uma afirmação que nunca passou de uma hipótese . Vou te mostrar isso hoje. Já antecipo que a maioria dos estudos científicos não encontra isso que o ChatGPT apresentou ( veja Haun et al., 2019 ). Mesmo quem acredita nessa história, como Roberts et al. (2020) , reconhecem que se trata de uma ‘ hipótese especulativa ’ ( eles reconhecem isso no tópico ‘ Broader implications ’ desse artigo ). Essa crença revelada pelo ChatGPT parece ter surgido inicialmente há 127 anos, no primeiro estudo ( em 1897 ) envolvendo ‘exercício físico e hipertrofia’, feito por M. Mopurgo ( depois leia meu post História da Hipertrofia: Quanto você sabe? ). Isso porque, naquela época, a HME que ele identificou foi predominantemente sarcoplasmática. Clique aqui e conheça meu novo livro . Benefícios : (1) Maior autonomia e competência no julgamento da evidência científica; (2) Maior segurança nas decisões pessoais e profissionais; (3) Maior poder contributivo para equipes multidisciplinares; (4) Maior valorização dos pares, clientes e pacientes. Prof. Dr. Wellington Lunz Mas na década de 1970 surgiram estudos em nível celular mostrando aumento da ‘densidade miofibrilar’ induzido pelo treinamento de força, sem aumento do volume celular. Em 1976, Thorstensson e Cols também encontraram um resultado intrigante. O treinamento de força induziu aumento da massa muscular, mas NÃO induziu aumento da ‘área de secção transversa’ de fibras musculares e nem da perimetria muscular. Como é possível? Minha hipótese é que pode ter ocorrido hipertrofia miofibrilar. As miofibrilas teriam ficado mais empacotadas, por isso teve aumento da massa, mas não do volume. Todas essas histórias acima você encontrará no post ‘ História da Hipertrofia: Quanto você sabe? ’ Mas creio que o estudo que mais deu força a essa crença revelada pelo ChatGPT foi um estudo publicado em 1982, feito pelos espetaculares cientistas J. D. MacDougall, D. G. Sale e mais dois autores. Dei destaque a esses dois professores eméritos da McMaster University ( Canadá ) pela enorme contribuição em nossa área. Daqui a pouco contarei mais desse artigo, e o citarei como MacDougall et al (1982) . Para a gente não se perder, vou voltar agora ao objeto do post. Além dessas afirmações sem evidências, a classificação dada pelo ChatGPT é muito rasa. Eu particularmente classifico a hipertrofia muscular considerando duas dimensões. Na primeira eu considero o componente estrutural predominante . Na segunda eu considero o componente temporal . Já irei explicar melhor. Mas antes devo fazer um alerta: Para você entender bem o que eu falarei hoje aqui, é muito importante que você já tenha lido ou já tenha domínio daquilo que eu falei no post ‘ Hipertrofia muscular: Só sabe o conceito quem NÃO pensa demais. ’ Qualquer coisa, dê uma paradinha aqui, leia lá, e depois volte. Vale a pena. Sigamos! Em relação ao componente estrutural predominante , que em outros tempos eu chamava simplesmente de ‘tipo’, hoje eu subclassifico em: ✔️ Convencional ✔️ Miofibrilar ✔️ Sarcoplasmática Importa dizer que essa ideia acima não é originalmente minha, mas me apropriei da forma como Roberts et al. (2020) descreveram, pois faz sentido. Em relação ao componente temporal, eu subclassifico em: ✔️ Aguda ✔️ Transitória ✔️ Crônica E esta ideia é minha mesmo. Hoje, para o post não ficar muito longo, falarei apenas das subclassificações do componente estrutural predominante . No post da próxima semana eu falarei do componente temporal . Então segue minhas explicações sobre as hipertrofias convencional , miofibrilar e sarcoplasmática . Hipertrofia Convencional Precisamos ter em mente que para uma célula muscular aumentar seu volume em resposta ao treinamento contrarresistência de médio e longo prazo, é preciso que tanto o sarcoplasma quanto as miofibrilas aumentem. No caso das miofibrilas, pode ocorrer também miofibrilogênese. Ou seja, novas miofibrilas são formadas. Se as miofibrilas aumentassem seus tamanhos ou sua quantidade sem que houvesse aumento do sarcoplasma, não teria como ocorrer aumento do volume celular. Se o sarcoplasma não expandisse, não teria como acomodar esse aumento miofibrilar para sempre. Esse empacotamento miofibrilar ou seria biologicamente limitado ou arrebentaria o sarcolema. Ao mesmo tempo, se houvesse apenas aumento do sarcoplasma, de modo que as miofibrilas ficassem muito distantes umas das outras, é muito provável que o processo de contratilidade ficaria prejudicado. No mínimo precisaria de uma rede de retículo sarcoplasmático gigante. E esse afastamento provavelmente dificultaria bastante a transmissão de força intracelular. Portanto, o mais razoável é acreditar que a hipertrofia ocorra convencionalmente com aumentos proporcionais do sarcoplasma e das miofibrilas. À medida que aumenta um, deve aumentar o outro também. Esse tipo de hipertrofia em que tanto o sarcoplasma quanto as miofibrilas aumentam proporcionalmente é o que a maioria dos cientistas acredita ser a forma mais habitual de hipertrofia. Por isso eu a estou chamando de hipertrofia convencional, como fez Roberts et al. (2020) . Mas também poderíamos chamar de hipertrofia proporcional, como fez Haun et al. (2019) . E os autores deste parágrafo são todos do mesmo grupo de pesquisa. Resumindo, a hipertrofia convencional é aquela em que o sarcoplasma e as miofibrilas aumentam concomitante e proporcionalmente. Hipertrofia Miofibrilar O que tem sido chamado de hipertrofia miofibrilar não é exatamente uma hipertrofia apenas miofibrilar, mas sim uma hipertrofia com aumento predominante de miofibrilas. Ou seja, o aumento de miofibrilas seria desproporcionalmente maior que o aumento do sarcoplasma ( Haun et al. 2019; Roberts et al. 2020 ) . Há inclusive uma teoria chamada ' bag theory ' que propõe o seguinte: Por um certo tempo a célula ( e seu sarcoplasma ) poderia ficar do mesmo tamanho enquanto estruturas internas ( ex: miofibrilas ) poderiam aumentar. A analogia da cesta de supermercado que farei a seguir pode te ajudar a entender. Imagine você colocando coisas dentro de uma cesta de supermercado. À medida que a cesta vai enchendo, as coisas que você coloca dentro vão forçando a parede da cesta, fazendo com que ela se expanda. Assim como no caso da cesta, o sarcoplasma teria que expandir para mais coisas caberem dentro. Em resumo, há quem acredite que é esse aumento interno que forçaria o aumento do sarcoplasma e, claro, da própria célula. Mas há também quem pense o oposto ( Roberts et al. 2020 ). Ou seja, primeiro o sarcoplasma aumentaria para que depois as miofibrilas e outras estruturas internas pudessem aumentar. Isso já nos aproxima do próximo tópico, pois quem pensa assim acredita que a hipertrofia sarcoplasmática poderia acontecer antes da miofibrilar. E não só! Isso seria condição para a hipertrofia miofibrilar ocorrer. Mas são apenas teorias. Não temos comprovação disso. Ainda não sabemos se há relação causa-efeito entre miofibrilas e sarcoplasma. O Prof Wellington Lunz apoia e recomenda o Instituto Afficere. Agende sua consulta nutricional. Hipertrofia Sarcoplasmática Assim como no caso anterior, o que tem sido chamado de hipertrofia sarcoplasmática não é exatamente uma hipertrofia apenas do sarcoplasma, mas uma hipertrofia cujo aumento do sarcoplasma seria predominante. Ou seja, haveria aumento desproporcional do sarcoplasma em relação ao aumento das miofibrilas ( Haun et al. 2019; Roberts et al., 2020 ) . Roberts et al. (2020) defendem a existência da hipertrofia sarcoplasmática. Citam alguns bons estudos sobre isso. E considerando tais estudos, é muito provável que esse tipo de hipertrofia realmente ocorra. No mínimo seria um fenômeno agudo, na forma de edema, como consequência de danos intramusculares. Ou seja, esse edema aumentaria o volume hídrico intracelular, aumentando o sarcoplasma. Mas a defesa de Roberts et al. (2020) é que também possa ocorrer de forma crônica, dependendo do tipo de treinamento. Daqui a pouco volto a isso. Mas considerando o tanto de estudos que já viram hipertrofia miofibrilar acontecer, e mais o tanto de estudos que já viram hipertrofia sarcoplasmática acontecer, os próprios autores do parágrafo anterior reconhecem que essas formas de hipertrofia poderiam ser transitórias. Uma ou outra poderia ocorrer por um tempo, mas não seriam permanentes. É uma tese interessante. Por exemplo, no estudo de Damas et al. (2018) , que darei mais destaque no próximo post, eles mostram que a hipertrofia que ocorre nas primeiras 2 semanas é quase que exclusivamente explicada por retenção hídrica. Mesmo depois de um mês de treinamento, em torno de 50% da hipertrofia ainda é explicada por edema. Embora esse estudo de Damas et al. não investigou se a hipertrofia era ou não sarcoplasmática, Roberts et al. (2020) acreditam que nessa fase inicial do treinamento a hipertrofia sarcoplasmática teria maior probabilidade de ocorrer. Mas devo reforçar que, por ora, é apenas uma hipótese. Só para aproveitar que estamos na hipertrofia sarcoplasmática, deixe-me rapidamente falar daquele estudo de MacDougall et al (1982) , que citei lá no início. É um estudo clássico, e até hoje difícil de reproduzir, pois usaram microscopia eletrônica de transmissão, que é uma técnica pouco acessível. O estudo teve dois delineamentos. No primeiro delineamento, pessoas previamente destreinadas foram submetidas a um treinamento de força por 6 meses. E os autores encontraram reduções nos volumes miofibrilar e mitocondrial de uma amostra do músculo extensor do cotovelo ( provavelmente o tríceps braquial ), concomitante a um aumento no volume sarcoplasmático. Ou seja, os resultados mostraram que o treinamento causou hipertrofia sarcoplasmática. No segundo delineamento, eles compararam amostras musculares de 7 atletas de elite ( 5 do fisiculturismo e 2 do powerlifting ) com pessoas destreinadas. E os autores relataram menor volume miofibrilar e maior volume sarcoplasmático nas fibras desses atletas. Portanto, os resultados reforçam que o treinamento de força causa hipertrofia sarcoplasmática. Mas, há algo importante para destacar aqui: Os autores jamais falaram que houve diferença entre atletas do fisiculturismo e do powerlifting . A gente sabe que fisiculturistas habitualmente treinam com mais repetições e menos carga, e atletas do powerlifting treinam com muita carga e menos repetições. Então, essa hipertrofia sarcoplasmática teria ocorrido em atletas de ambas as modalidades. E a possível explicação dada pelos autores seria o aumento da retenção hídrica dentro das células. Mas muita gente cita esse artigo para falar aquilo que o ChatGPT respondeu lá no início. Ou seja, de que a ‘hipertrofia sarcoplasmática’ é induzida por muitas repetições e pouca carga, e que a ‘hipertrofia miofibrilar’ é induzida por muita carga e poucas repetições. Eu confesso que nunca vi um estudo relativamente robusto mostrando isso. Não estou dizendo que duvido, mas nem nós e nem o ChatGPT deve afirmar sem evidências. Embora não seja o tema de hoje, esse mesmo estudo é muito citado para defender que o treinamento de força induz hiperplasia muscular em humanos. Isso porque os autores viram grande diferença de volume muscular em favor dos atletas ( medido por perimetria ), mas sem diferença estatística no volume das células quando comparado aos destreinados. Com isso os autores inferiram que os atletas tinham mais células que os destreinados. Ou seja, poderia ter ocorrido hiperplasia. Mas aí tem outra coisa que, creio, as pessoas não prestaram muita atenção. Nem mesmo nossos respeitáveis autores. Explico: Se você olhar os resultados do estudo verá que matematicamente os atletas tinham 1,27 vezes mais perimetria do braço. Se você dividir o volume celular das fibras tipo II dos atletas pelo volume celular dos sedentários, verá praticamente o mesmo resultado (aprox. 1,29 vezes). No artigo deles, esse resultado está na forma de gráfico, então só permite um resultado aproximado. O Prof Wellington Lunz apoia e recomenda o Instituto Afficere. Agende sua consulta nutricional. Acho que a confusão está no fato de que a perimetria deu diferença estatística, mas o volume celular não. Entretanto, matematicamente não há diferença. E devemos lembrar que a amostra é bem pequena, de modo que o poder estatístico é muito baixo. Não se pode dar muito peso ao resultado estatístico desse estudo. Até daria para sugerir essa hiperplasia se considerássemos apenas os resultados das fibras tipo I. Mas essas fibras contribuem menos para hipertrofia. Não acho prudente fazer isso. Em resumo, eu também não duvido que a hiperplasia possa existir, mas dizer que esse estudo é garantia disso é forçar muito a barra. Então, concluindo essa primeira parte: Ainda há muita dúvida sobre se a forma dominante de hipertrofia seria a convencional, a miofibrilar ou a sarcoplasmática. E se uma ou outra poderia estar mais associada a diferentes tipos de treinamento. Ainda teremos que esperar para ter clareza sobre esse assunto. E até lá devemos afirmar menos e ponderar mais. Talvez você me pergunte: Por que é tão difícil descobrir isso ? O problema é que as técnicas histológicas envolvem muita manipulação do tecido ( ex: desidratação ), e isso torna a tarefa difícil para os cientistas. Sei que há pessoas que não suportam a dúvida, e acabam escolhendo algo para afirmar. Eu, felizmente, convivo bem com a dúvida. Ela não me incomoda. E, por isso, não fico inventando respostas. Então é isso amigo ou amiga... Obrigado por ler até aqui. E se você gostou, que tal compartilhar com colegas e amigos/as ou nas suas redes sociais. E se você curtir esse post me motivará a continuar escrevendo. E quem quiser receber as novas postagens deste Blog, basta clicar aqui para se inscrever na Newsletter . Lunz, W. Você sabe classificar a hipertrofia muscular? Ano: 2024. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/quais-os-tipos-de-hipertrofia-muscular [Acessado em __.__.____]. Clique aqui e acesse videoaulas no ' Canal Prof. Wellington Lunz'. Acesse outras postagens do blog : Proteína para hipertrofia: Quanto mais, melhor? Por que não consigo ganhar massa muscular? Lamento, mas SUPLEMENTOS servem para praticamente nada. Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . Tem se dedicado em transmitir conhecimentos baseados em evidências em diferentes áreas do conhecimento (ex: hipertrofia muscular, treinamento de força, musculação, fisiologia do exercício, flexibilidade). É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Atualmente é Professor Associado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Contato pelo site ou e-mail: welunz@gmail.com.br
- A Ciência Virou Commodity, e o LUCRO Agora é a Regra.
Resumo : a ciência virou commodity, e agora a inteligência artificial está sendo apresentada como solução para o peer review científico. Mas a quem ela realmente servirá? Grandes editoras, como a Frontiers, disfarçadamente querem usar a IA para acelerar a mercantilização da ciência, reforçando o mainstream científico e aumentando muito seus lucros. O peer review humano hoje funciona como gargalo econômico para as mega corporações, e driblar isso é o caminho para avacalhar de vez a ciência. Uma reflexão essencial para quem produz e consome ciência. Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo Apareceu agora para mim uma propaganda patrocinada pela Frontiers, que é uma megacorporação com muitas revistas científicas, e que cobra uma fortuna dos autores para publicar um artigo científico. Certa vez recebi um artigo deles para revisar, mas desisti depois que identifiquei que cobrava 12 mil reais dos autores para publicar. Mas já me disseram que há revistas desse grupo, que não é o único, que cobram mais de 20 mil reais. Não à toa que a Elsevier, outra mega-editora, tem lucro similar ao Google e Apple. Mas o assunto da propaganda me assustou de cara: trata-se do uso da inteligência artificial ( IA ) para elaborar o processo ‘ peer review ’. Baixei o documento ( clique aqui para acessar ). E o que temos é um documento de inocência disfarçada ( eficiência, velocidade, padronização, redução de erros ), que esconde os tentáculos do capitalismo, prendendo de vez a ciência, que, convenhamos, já virou commodity há tempos. Hoje, gratuitamente, pesquisadores produzem conhecimento e editores/revisores avaliam artigos. As universidades financiam a infraestrutura e formação, enquanto os publishers ( mega corporaçõe s) se apropriam da propriedade intelectual, estabelecem os fluxos editoriais e os indicadores de impacto e, sobretudo, LUCRAM muito. O peer review humano, pilar da validação científica, tornou-se o principal gargalo desse modelo, porque é lento, voluntário e, principalmente, cada vez mais escasso. Com isso, ele não escala na mesma velocidade que o crescimento das submissões e a ganância dos publishers . A introdução de IA não é inocente. Surge como resposta a esse gargalo econômico, de ampliar a rentabilidade do sistema editorial sem depender do trabalho humano gratuito, que começa a dar sinais de rebeldia. O documento fala da importância do peer review humano. Mas se é importante, por que não pagam por ele? Por que só querem explorar? Cobram 20 mil reais e não querem pagar um centavo para o avaliador? E a automatização de processos deve aumentar aquilo que Thomas Kuhn tanto denunciou: produção de conhecimentos paradigmáticos e dificuldade de conhecimentos disruptivos e antiparadigmáticos. Certamente favorecerá a regularidade, a previsibilidade e a aderência ao mainstream , penalizando abordagens inovadoras e heterodoxas. Além disso, é muita inocência acreditar que uma AI será usada para julgar artigos, e que cientistas não usarão IAs para driblar seu algoritmo. Reconheço e reclamo muito do modelo humano do peer review . Mas o uso da IA não pretende melhorá-lo. Pretende suplantá-lo de vez. Abrir as porteiras para o capital. Sem resolver isso, a IA tende menos a complementar o peer review humano e mais a substituí-lo progressivamente, disfarçadamente, mantendo intacta a lógica de extração de valor. A questão decisiva, portanto, não é se a IA deve ou não ser usada na ciência, mas a serviço de quem? O que a Frontiers pretende é usar a IA para acelerar a mercantilização da ciência, e não para fortalecer sua integridade epistemológica. E aproveito para divulgar meu livro Tomada de Decisão Baseada em Evidência : como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde . Em tempos de desinformação massiva e de tantos falsos experts , distinguir evidências reais das falsas é tanto emancipador quanto vital. Esse livro ensina a julgar a qualidade da evidência e a força da recomendação de qualquer artigo científico da área da saúde. O livro oferece um sistema estruturado e didático , com: Modelo de Julgamento : um sistema quantitativo de notas ( 0 a 100% ) em paralelo a um sistema qualitativo ( muito baixo, baixo, moderado, alto e muito alto ). Separação Estruturada : um framework claro para avaliar o nível de evidência com base em 13 quesitos metodológicos, e o grau de recomendação com base em 9 quesitos formais. Ferramenta Prática (Checklist/Planilha): O conteúdo está associado a uma planilha gratuita que orienta no julgamento da qualidade da evidência e na força da recomendação ( e ainda serve como checklist ). Script para Inteligência Artificial : fiz um script para a IA ChatGPT poder julgar o nível de evidência e o grau de recomendação . Embora a IA não deva substituir o julgamento humano final, ela facilita a compreensão e diminui a chance de erro humano, pois o script foi projetada para que a IA explique a razão das notas dadas a cada quesito. E se você quiser ver o uso prático, passo a passo, da aplicação do meu livro, acesse o post: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos . E para mais posts , acesse https://www.wellingtonlunz.com.br/blog . Você também pode se inscrever na Newsletter para receber novos posts. Até o próximo po st! Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. É Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.
- O Melhor Exercício Para Glúteos é...
Resumo : todo guru fitness tem a resposta para a pergunta: ' Qual é o melhor exercício para glúteos? '. Mas a resposta não tem base científica. Até 2019, só havia um estudo robusto ( Kubo et al. ) sobre o assunto. Pesquisas mais recentes ( Kassiano et al., 2023; Plotkin et al., 2023 ) ampliaram um pouco mais nosso conhecimento. Mas ainda faltam estudos com evidências diretas. Eu, mais por experiência que por ciência, recomendo alguns exercícios. Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Qual é o melhor exercício para glúteo? Se eu fosse um guru eu te daria uma resposta sem titubear. Inequívoca. Todo guru fitness conhece “ o melhor exercício do mundo para aquilo que seu seguidor deseja ”. Aliás, falando em fitness , depois leia meu post ‘ Drogas, Renato Cariani, Polícia Federal e Fitness... Uma salada danada! ’ para entender melhor a história do fitness ( vale a pena! ). Mas, como eu não sou guru, estou mais comprometido com a realidade das coisas. Eu, mais por experiência que por ciência, descrevi lá no final deste post os exercícios para glúteo que eu considero suficientes para se alcançar excelentes resultados. Quem quiser só saber isso, pode procurar lá no finalzinho. Mas sei que meus corajosos leitores e leitoras não renunciam a uma discussão elaborada, e por isso seguirão firmes nessa leitura. Meu interesse hoje é mostrar o que ‘ glúteos tem a ver com ciência ’. Você verá que respostas válidas são aquelas que consideram evidências baseadas em estudos robustos. Vou começar a escrita com uma história recente. Uma estudante me enviou um vídeo de um desses gurus de rede social, onde o cara dizia que o exercício Stiff não era indicado para o músculo glúteo máximo, mas apenas para treinar os isquiotibiais ( músculos posteriores da coxa ). Caso você não conheça o Stiff , jogue no google: Stiff Leg Deadlift Gif. O vídeo tinha descontinuidades estranhas. Fiquei com receio de alguém ter feito edições maldosas. O que tem sido cada vez mais comum. Então eu desconsiderei o mensageiro e me concentrei só na mensagem. O Stiff é um exercício ativo de extensão do quadril, e o glúteo máximo é o extensor mais potente do quadril. Não é possível fazer a extensão do quadril sem acionar o glúteo máximo porque simplesmente não conseguimos anular o glúteo. É uma questão neuromuscular. E você pode até testar isso onde estiver agora. Mas para você não ter que ficar publicamente mexendo o glúteo para lá e para cá, você pode fazer a experiência usando os flexores do cotovelo. Desse jeito: Tente fazer uma flexão do cotovelo sem acionar o bíceps braquial ( lembre-se que o bíceps braquial não é único a fazer essa ação ). A constatação será de que NÃO é possível. O mesmo ocorre com o glúteo máximo em relação a extensão do quadril. Então, se for verdade que o caro guru da história falou aquilo que eu ouvi, ele viajou demais. Mas o que me interessa aqui hoje é outra coisa. É muito mais sobre uma questão que podemos fazer. E que dá um ótimo trabalho científico. Que é a seguinte: Se alguém treinar só usando o exercício Stiff , quais músculos irão hipertrofiar mais: Glúteo máximo ou isquiotibiais? Na verdade, podemos fazer várias perguntas similares, trocando o Stiff por outros exercícios que habitualmente são usados para hipertrofiar glúteos, como por exemplo o levantamento terra ( e suas variações; aliás o Stiff é uma variação ), o agachamento ( e variações ), o leg press pisada alta, máquina extensora específica, afundo, etc. E é aqui que vocês começarão a entender ‘ o que o glúteo máximo tem a ver com ciência ’. Eu insisto com meus e minhas estudantes que quando estiverem diante de uma informação divergente, às vezes até aparentemente ilógica, ou ainda uma virtual obviedade que esteja sendo questionada, é PRECISO seguir RACIOCÍNIOS CIENTÍFICOS. Aliás, acabei de lançar um livro que ensina tudo sobre como julgar a qualidade da evidência científica e o grau de recomendação. Ao final falarei um pouco sobre ele. A ciência usa dois fundamentos muito importantes. São chamados de ‘ validade interna ’ e ‘ validade externa ’. Não irei me estender hoje sobre a ‘validade externa’ ( apesar de muito importante ), mas resumidamente tem a ver com o quanto o conhecimento produzido é socialmente aplicável. Afinal, não é incomum estudos científicos refinados cuja aplicação social é zero. A ‘validade interna’ me interessa mais hoje. Ela tem a ver com o rigor metodológico. Às vezes, um estudo é socialmente muito relevante, mas se o método for mal escolhido e mal conduzido, não terá validade. E, na Ciência, há vários delineamentos possíveis. Mas esses não têm exatamente o mesmo valor. Os desenhos experimentais são mais ou menos valorizados dependendo do seu rigor metodológico. Existe até uma ilustração na forma de pirâmide ( veja abaixo; fonte: Sigman, 2011 ) que orienta sobre a hierarquia das evidências científicas. Ou seja, sobre os níveis de robustez dos estudos. pirâmide da hierarquia das evidências científicas Desenhos experimentais mais no alto da pirâmide são mais rigorosos. Já os da base da pirâmide, são menos ou pouquíssimo rigorosos. Quanto mais na base, mais cuidado temos que ter quanto a validade. No meu livro eu compartilho da interpretação de que opiniões de especialistas não são evidência. Não deveriam estar nessa pirâmide. Em relação a essa pirâmide, há sempre gente com bons argumentos propondo mudanças ( Murad et al., 2016 ). Eu nem coloquei a pirâmide mais completinha que há. Essa inclusive está faltando os estudos transversais ( cross sectional study ), que ficam mais ou menos no meio da pirâmid e ( veja aqui ou aqui ). Essa é só para você ter uma ideia. Além dos NÍVEIS de evidência, temos que falar sobre a FORÇA das evidências: para um estudo ter alta validade interna ele precisa usar técnicas alinhadas ao um conceito que chamamos de ‘ evidência direta ’. E a medida direta é um ( não o único ) dos quesitos da evidência direta. Medida direta refere-se, resumidamente, a medir exatamente o que se pretende na população de interesse, a partir da intervenção e comparação corretas. Gosto de uma analogia. Veja: Suponha uma maratona. Há uma aposta rolando e você quer apostar em um corredor. Se ele vencer, você vence. Suponha que a única informação que você tem é o valor de VO2max de todos os corredores da disputa. E você sabe que quanto maior é o VO2max, maior é a competência aeróbia. Por isso, o mais provável é que você aposte no corredor com maior VO2max. Mas aí eu te pergunto: Esse é o corredor que vencerá? Não dá para afirmar, né? Então, como saber quem vencerá? A forma mais precisa é por ‘ medida direta ’. E a medida direta aqui é a seguinte: Coloque todo mundo pra correr, e aí saberá quem chegará primeiro. Claro que no caso da aposta não tem como ‘correr primeiro’ para apostar depois, mas o exemplo é só para caracterizar que a ‘medida direta’ envolve PRECISÃO, e não especulação ou sorte. O que não é ‘medida direta’ é estimativa, que, claro, poderá ter maior ou menor probabilidade de estar correta ( o que não deixa de ser útil ). No mundo da hipertrofia muscular podemos citar várias medidas habituais que NÃO são diretas. Vou destacar algumas: ‘Sinais eletromiográficos’ ( veja esse meu post depois ), ‘síntese de proteínas’, ‘perimetrias’, ‘medida de área’, ‘variação hormonal’, ‘cálculos biomecânicos ( incluindo torque )’ e estimativas feita por equações. Então, resumindo, a pirâmide acima estabelece NÍVEIS de evidência, enquanto ‘medida direta’ é um dos quesitos da evidência direta e da FORÇA da evidência. Após esse breve resumo científico, vou dizer algo que lhe parecerá inacreditável: Até o ano 2019 só tínhamos um estudo publicado sobre ‘ exercício e hipertrofia do glúteo máximo ’ que se encaixava na parte alta dessa pirâmide, com boa força de evidência. Usaram ressonância magnética, que é padrão ouro para medida in vivo da hipertrofia muscular. Falarei dele daqui a pouco. E esse estudo nem era sobre o Stiff , mas sim sobre duas variações de agachamento. Mais recentemente surgiram dois bons estudos originais sobre o exercício de ‘elevação pélvica ( hip thrust ) e hipertrofia’ que merecem comentários ( no final eu falo deles ). Até há outros estudos envolvendo outros exercícios, como mostraram Neto et al. (2025 ) numa metanálise sobre o assunto. Mas, nenhum tão elevado para ficar no topo da pirâmide. Se, então, não existem bons estudos sobre a questão que eu formulei lá em cima, que era: ‘ O Stiff é melhor para hipertrofiar glúteos ou isquiotibiais? ’, podemos inferir duas coisas: 1) Não dá para afirmar o quão bom ou ruim o Stiff é para hipertrofiar glúteo máximo; 2) E temos uma oportunidade. Se você estiver pensando em fazer ciência ( ex: mestrado ou doutorado ) nas ciências do treinamento de força e hipertrofia, eis aí uma boa questão para investigar. Eu sei que há estudo que viu que o Stiff gerou maior sinal eletromiográfico no glúteo máximo quando comparado aos isquiotibiais ( McCurdy et al., 2018 ). Embora eletromiografia não seja evidência direta, permite formular hipóteses. E você poderia me perguntar: Mas por que em pleno século 21 nós ainda não temos evidências robustas de que o Stiff é ou não um bom exercício para hipertrofiar glúteo máximo? Antes de eu responder, no lugar do Stiff você pode também colocar leg press , levantamento terra ( e variaçõe s) e afundo. Aliás, me surpreende muito mais o fato de não termos evidência direta para o levantamento terra clássico, porque é um movimento olímpico ( feito há séculos ). Mas respondo: O que ocorre é que a maioria dos estudos que investiga hipertrofia muscular acaba usando vários exercícios. Por exemplo, imagine um estudo que tenha usado 3 exercícios ( levantamento terra, agachamento e Stiff ), e depois medido a hipertrofia do glúteo máximo. Ainda que os pesquisadores encontrem resultado positivo para hipertrofia, esse desenho experimental não permite saber qual foi o melhor exercício. O que, portanto, precisamos são estudos que investiguem um único exercício, senão não dá pra saber. E foi isso que fez o único estudo com forte evidência direta que relatei lá em cima. Vou falar dele agora: Trata-se do estudo de um grupo de pesquisa japonês ( Kubo et al., 2019 ). Envolveu uma amostra jovem, sem experiência em exercício de força, que treinou agachamentos por 10 semanas ( 3 séries, 8–10 reps, 60–80% de 1RM ). E o agachamento profundo ( 0 a 140 graus dos joelhos ) induziu média de 6,7% de hipertrofia no glúteo máximo, enquanto o agachamento tradicional ( 0 a 90 graus ) apenas 2,2%. Repare que o estudo também contribuiu para a gente perceber que fazer agachamento profundo ( total ) produz mais hipertrofia que o agachamento tradicional. Coisa que até essa publicação ninguém podia afirmar. E não existe essa história de que agachamento profundo é mais perigoso que o agachamento parcial. Essa é outra interpretação sem base científica. Em minhas aulas cito estudos que sugerem que o agachamento profundo é até mais seguro que o tradicional. E se você quiser aprender mais sobre agachamento, leia o post Agachamento: Os 10 erros principais. Vale fazer uma ponderação. Até existem outros estudos que investigaram hipertrofia do glúteo usando um único exercício, mas com estratégias ou públicos atípicos. Veja: Encontrei estudo com agachamento usando flywheel ( que é um equipamento muito legal, mas ainda pouco usado ) ( Nakamura et al., 2021 ). Encontrei estudo com oclusão vascular, baixa intensidade ( 20-30% de 1RM ) usando leg press numa amostra de idosos ( Yasuda et al. 2014 ). Encontrei estudo usando ações excêntricas ( máquina parecida com uma bike horizontal ) especificamente em pessoas submetidas a reabilitação pós-cirúrgica de ligamento cruzado ( Gerber et al 2007 ). Sobre o flywheel, tenho um post bem legal: Treinamento Isoinercial (Flywheel Training) é REALMENTE melhor? O estudo com flywheel não viu efeito positivo para hipertrofia do glúteo máximo. Mas foram apenas 5 semanas usando agachamento parcial. O estudo com oclusão vascular em idosos ( amplitude de 125 graus do joelho na bike ) gerou ~4% de hipertrofia glútea. O estudo de reabilitação induziu 20% de aumento em uma dada região anatômica do glúteo. E para evitar que algum fanático apareça por aqui dizendo que há outro estudo de um dado “pesquisador” brasileiro, já antecipo que eu NÃO considero estudos de quem tem quase uma dezena de artigos retratados ( artigos despublicados pelas revistas por evidência de fraude ). Inclusive trata-se de alguém cujo modus operandis sempre foi surfar em lacunas da ciência para poder fazer barulho. Por exemplo, esse sujeito usou o único estudo que existia, que era dele mesmo e cheio de limitações, para afirmar que o exercício de ‘elevação pélvica ( hip thrust )’ era inútil para hipertrofia do glúteo máximo. Estudos posteriores mostraram ser mentira ( Kassiano et al., 2023 ; Plotkin et al, 2023 ). Embora saibamos pela prática que alguns exercícios obviamente aumentam o volume muscular do glúteo, sem dados científicos ficamos sem saber a magnitude de cada exercício. E como escrevi noutro post: ‘ Quem Não Sabe a Magnitude, Não Sabe! ’. E você poderia me perguntar: Enquanto não temos conhecimento científico robusto, o que podemos fazer? Bom, um jeito é usar conhecimentos menos robustos. Nesse caso, a força da evidência diminuirá e aumentará nossa chance de errar, mas não é proibido. Se você olhar novamente a pirâmide da 'hierarquia das evidências científicas’, verá que podemos descer nela e buscar estudos de menor qualidade. E temos alguns. Vou mostrar para você. Antes, veja que no topo da pirâmide estão os estudos mais prestigiados. Ex: "são os trials ( ensaios; ou metanálises provenientes desses trials ) com intervenção, grupo controle, amostra randomizada, idealmente com cegagem". E, para ficar completinho, precisa ter medida refinada do desfecho. A força da evidência depende muito da qualidade da medida. Então, mesmo descendo essa pirâmide, eu prefiro não renunciar às medidas DIRETAS. Um estudo no topo da pirâmide sem medida direta pode não ser melhor que um estudo no meio da pirâmide com medida direta. É um negócio complicado de explicar rapidamente por aqui. Considere depois meu livro . Mas esse é um ponto que se questiona da pirâmide ( Murad et al., 2016 ). Ela oferece níveis, mas não necessariamente força. Mas vamos descer um pouco a “régua". No meio da pirâmide estão os estudos TRANSVERSAIS ( veja aqui ou aqui ). Vou resumir resultados de alguns desses estudos transversais ( Takahashia et al., 2021 ; Niinimäki et al., 2016 ; Erdağı & Işık 2021 ): ✔️ Atletas com maior área ou volume de glúteo máximo são aqueles/as envolvidos em corridas rápidas ( ex: 100 m rasos, futebol e squash ), ou cuja modalidade exige extensão do quadril contra alta carga ( ex: powerlifting e LPO ), ou exige saltos verticais ( ex: voleibol ). Em relação a magnitude, esses estudos mostraram que o volume glúteo ficou entre 17% e 40% maior nos atletas quando comparados a não atletas. Então temos aí algumas sugestões do que pode funcionar. As limitações desses estudos são típicos dos estudos transversais, pois olhamos para o efeito e sua possível causa na mesma foto ( mesmo momento ). Mas causa deve sempre anteceder o efeito. Exige o princípio da temporalidade. Senão, você poderia ver uma pessoa obesa fazendo caminhada e interpretar que a 'caminhada engorda'. Eis o problema de interpretar causa e efeito na mesma "imagem" ( mesmo momento ). Por exemplo, esses atletas apenas relataram como treinavam. Mas o relato depende da memória e honestidade ( que são falhas ). Parte dos resultados poderia ser efeito de uma "seleção natural" do esporte, uma vez que a potência muscular glútea é também muito importante para os atletas de tais modalidades. Mas se não tivéssemos nem mesmo os estudos transversais? O que fazer? Aí poderíamos descer mais ainda na pirâmide. Vamos aproveitar e ir para a base dela. Repare o que temos lá: ‘Opinião de especialistas' ( expert opinion ). Há pirâmides que colocam estudos pré-clínicos num nível inferior. Seja como for, opinião de especialista está bem embaixo... E tem pouco valor científico. E por quê? Vou contextualizar para você entender. Nós passamos recentemente por uma terrível pandemia. Foi trágica, mas também foi pedagógica. Você viu o tanto de médicos defendendo terapias sem qualquer comprovação? Algumas bizarras. Variou de cloroquina e ivermectina a ozônio via retal. O problema da opinião dos especialistas é que elas são carregadas de viés de confirmação ou conflito de interesse ( conscientes ou não ). Esses dias eu fui a uma reunião condominial. Estava-se discutindo permitir que um supermercado explorasse gratuitamente nosso espaço para colocar um minimercado dentro do condomínio. Mas tem mais! A empresa exige colocar num espaço de grande exposição, com vidros absolutamente transparentes, e a escolha dos produtos é exclusividade da empresa. Eu fui contra. Mostrei evidências científicas de que a exposição a determinados produtos se associa com obesidade infantil e adulta. Eu queria que minimamente colocassem vidros escuros. Então um psicólogo pediu a palavra. Investiu-se da sua especialidade, dizendo que tinha 30 anos de profissão. E que a percepção dele é que o ideal é deixar as crianças sempre expostas, e que isso fazia parte do processo de educar, etc. Mas será então que o psicólogo defenderia deixar as crianças expostas ao erótico? Ao terror? E que a classificação de idade que existe atualmente para muitas coisas deveria ser banida? Ocorre que a defesa do tal psicólogo se enquadra no que chamamos de ‘ética de ocasião ou de conveniência’. Como ele queria o minimercado, deu uma opinião com conflito de interesse. Se o interesse dele fosse o inverso, ele apoiaria minha fala científica. Mas voltando: um ' expert ' da área ( e eu me julgo um ) poderia, no máximo, indicar seu conjunto de exercícios. Afinal, ninguém prescreve só um exercício. E sem estudos científicos não dá pra afirmar qual exercício desse conjunto é melhor ou pior. Particularmente sugiro os seguintes exercícios ( OBS: sempre fazer o movimento com GRANDE amplitude de extensão do quadril, para contemplar a fase mais alongada do músculo. Depois leai meu post Treinar Com a Musculatura Alongada Gera Mais Hipertrofia Muscular? ): ✔️ Máquinas específicas de extensão do quadril ( pode incluir o crossover ). ✔️ Agachamentos profundos. ✔️ Leg press com pés na parte alta da plataforma. ✔️ Levantamento terra e variações ( ex: Stiff e romeno ). ✔️ Subir degraus ou bancos elevados. ✔️ Afundo. E a ELEVAÇÃO PÉLVICA ( hip thrust )? É uma pergunta que talvez você me faça, pois é um exercício que foi demonizado por um autorreferido pesquisador brasileiro ( prefiro chamá-lo de ‘publicador’ ), com mais de 400 mil seguidores no IG. Estudos mais recentes ( Kassiano et al., 2023 ; Plotkin et al, 2023 ) indicam que é um ótimo exercício. Eu nunca prescrevi porque dá muito trabalho ficar montando barras e anilhas. Não tenho muita paciência. Mas você pode fazer ou prescrever elevação pélvica com paz na consciência. Então, para resumir, afirmações precisam de EVIDÊNCIAS. E evidências têm níveis e força. De um simples exercício para o glúteo ao tratamento de uma doença complexa, precisamos considerar evidências baseadas em fatos da realidade. Por isso, se você deseja aprender a julgar a qualidade metodológica de artigos científicos e a força da recomendação dos resultados, apresento meu livro: Tomada de Decisão Baseada em Evidência: como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde . Em tempos de desinformação massiva e de tantos falsos experts , distinguir evidências reais das falsas é tanto emancipador quanto vital. Esse livro ensina a julgar a qualidade da evidência e a força da recomendação de qualquer artigo científico da área da saúde. O livro oferece um sistema estruturado e didático , com: Modelo de Julgamento : um sistema quantitativo de notas (0 a 100%) em paralelo a um sistema qualitativo (muito baixo, baixo, moderado, alto e muito alto). Separação Estruturada : um framework claro para avaliar o nível de evidência com base em 13 quesitos metodológicos, e o grau de recomendação com base em 9 quesitos formais. Ferramenta Prática (Checklist/Planilha): O conteúdo está associado a uma planilha gratuita que orienta no julgamento da qualidade da evidência e na força da recomendação (e ainda serve como checklist). Script para Inteligência Artificial : fiz um script para a IA ChatGPT poder julgar o nível de evidência e o grau de recomendação . Embora a IA não deva substituir o julgamento humano final, ela facilita a compreensão e diminui a chance de erro humano, pois o script foi projetada para que a IA explique a razão das notas dadas a cada quesito. E se você quiser ver o uso prático, passo a passo, da aplicação do meu livro, acesse o post: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos . A polilaminina envonvel outra história para ficar bem de olho. Acesse https://www.wellingtonlunz.com.br/blog para mais posts. Você também pode se inscrever na Newsletter para receber novos posts. E se quiser citar essa postagem, pode ser mais ou menos assim: Lunz, W. O que um exercício para glúteos tem a ver com Ciência? Ano: 2024. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/ melhores-exercicios-para-gluteos [Acessado em __.__.____]. Acesse outras postagens do blog : Proteína para hipertrofia: Quanto mais, melhor? Por que não consigo ganhar massa muscular? Lamento, mas SUPLEMENTOS servem para praticamente nada. Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.
- História da Hipertrofia: Creio Que Não te Contaram!
Resumo : embora o ser humano reconheça há milênios a hipertrofia e atrofia, a ciência só começou a estudá-las sistematicamente no século XIX. Primeiro com Rudolf Virchow (1858). Depois, B. Morpurgo (1897) demonstrou pela primeira vez a hipertrofia induzida por exercício. Mas somente na década de 1970 surgiram as primeiras evidências diretas em humanos. Se você é desses que não se contenta com saberes superficiais, esse post é para você. Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Num post anterior eu expliquei ( e compliquei ) o conceito de hipertrofia ( aqui ). Lá também falei da origem da palavra hipertrofia. Hoje quero falar sobre a história científica da hipertrofia muscular esquelética. Era para ser um texto curtinho, mas foram surgindo coisas legais demais para ficarem de fora. Então, aperte seu botão 'coragem' e siga comigo. Antes, devo alertar que ‘ hipertrofia muscular esquelética ’ não é a mesma coisa que ‘hipertrofia’ ou ‘hipertrofia muscular’. ‘Hipertrofia’ pode ocorrer em qualquer tecido; e ‘hipertrofia muscular’ pode ocorrer em qualquer músculo ( ex: liso, cardíaco e esquelético ). Vou enfatizar a história científica, o que não significa que antes não se tinha conhecimento do fenômeno. A diferença é que a ciência busca compreender os mecanismos, e uma consequência disso é a produção de conhecimentos refinados, o que permite ações muito mais eficientes. Aliás, tenho um post que trata de eficiência: Como Treinar Com Eficiência? Treinar Muito Não É Treinar Certo . Por exemplo, sabe-se há milênios ( muito antes da ciência ) que a chuva e o sol são importantes para a agricultura. Mas esse saber não responde perguntas como: Quanto de chuva? É o fenômeno 'chuva' ou é a água da chuva? Pois e se for a água, pode vir de qualquer fonte, não precisa cair do céu. E quanto de sol? O que vem exatamente do sol? A "dose" é igual para todas as formas de agricultura? Foi ciência que respondeu tais questões e tornou a agricultura mais eficiente. E vale para qualquer área de conhecimento. Eu apostaria tudo que tenho de que o ser humano reconhece a hipertrofia e atrofia muscular há muiiiitos milênios. Acredito firmemente que nossos antepassados milenares eram capazes de perceber, por exemplo, que pessoas imobilizadas por ferimentos atrofiavam velozmente. E, o oposto, aqueles envolvidos em atividades de carregar ou puxar peso eram mais musculosos. Você já ouviu falar das cavernas de Lascaux, de Chauvet e de Cosquer? Todas na França. Somadas, elas tem centenas de artes rupestres refinadas. E essas artes foram feitas há ~18 mil e 33 mil anos. Isso mesmo! Muitos milhares de anos antes de Cristo. A maioria das artes ( desenhos ) é de animais. Vários desenhos com técnica sofisticada, envolvendo delicados gradientes de cores. Me lembro de um desenho de um homem sendo retratado com a cabeça de pássaro ( um homem pássaro ). Ou seja, já havia representações simbólicas, subjetivas. Depois dê uma caçada na internet. E o que isso tem a ver com hipertrofia? Reconheço que diretamente não há qualquer relação. Mas tem a ver com inteligência e capacidade de percepção sensível. Por isso eu duvido que o ser humano não tinha inteligência e sensibilidade para perceber os fenômenos que hoje chamamos de hipertrofia e atrofia. Bem mais adiante temos a famosa e anedótica história de Milo de Crotona ( ~ 500 anos a.C. ). Milo foi um atleta grego. Muitos o consideram como o primeiro praticante documentado de treinamento PROGRESSIVO de força. De acordo com a anedota, Milo carregava um bezerro recém-nascido sobre os ombros diariamente. Teria feito isso por 4 anos seguidos, até este se tornar um touro adulto. Como resultado desse treinamento com peso progressivo, teria aumentado muito sua força e massa muscular. Depois, nas culturas greco-romana, considerando as representações artísticas que hoje temos acesso, fica claro que essa galera do passado compreendia bem a hipertrofia muscular; e, dependendo da época, a hipertrofia muscular era mais ou menos valorizada. Mas, como eu disse, ciência é outra história. Para a ciência não é suficiente a percepção de que um fenômeno existe. E como a ciência moderna é bem recente ( coisa do século 16 ), a compreensão da hipertrofia pelos olhos da ciência é relativamente recente. Parece que o primeiro pesquisador que usou o conceito de hipertrofia no âmbito biológico foi o patologista alemão Rudolf Virchow ( ver Roberts et al., 2023 ). Isso foi no ano de 1858. Virchow, que já usava microscópio na época, publicou um estudo apontando que alguns tecidos cresciam sem aumentar o número de células ( ele chamou de hipertrofia ), enquanto linfonodos cresciam pelo aumento do número de células ( ele chamou de hiperplasia ). E essa diferenciação e nomenclatura continuam até hoje. E parece que foi só em 1897 que surgiu o primeiro estudo científico mostrando clara relação entre exercício físico e hipertrofia muscular esquelética. Já voltarei a falar desse estudo, mas me permitam antes esclarecer algo. Antes desse primeiro estudo, Eugen Sandow ( 1867-1925, foto abaixo; fonte: McArdle et al ., 8ª edição ), conhecido como o pai do ‘fisiculturismo’, já exibia sua vasta e bem definida musculatura no chamado teatro de variedades ( gênero Vaudeville ). Foto de Eugen Sandow, 1890. Eugen Sandow aproveitou a fama para escrever sobre treinamento de força e alimentação, e chegou a propor máquinas de força. Em 1889, Daniel L. Dowd ( 1854-1897 ) já anunciava e comercializava máquina de força para uso doméstico ( veja a foto abaixo; fonte : McArdle et al . ; 8ª edição ). E é interessante ver na propaganda a palavra ' health ' ( saúde ) associada a máquina. O que eu quero destacar com isso é que muito antes da ciência, o ser humano já sabia bem o que aumentava os músculos. Mas, para a ciência são necessárias evidências diretas. Não basta alguém bater no peito dizendo que é assim ou assado. Pois além do risco de mentiras, charlatanismo ou mesmo erros honestos, há outras questões, como: Seria hipertrofia ou hiperplasia? Seria pelo treinamento ou algum efeito indireto ( ex: aumento da ingestão alimentar )? Então, volto agora à história do primeiro estudo científico. Segundo Roberts et al. (2023 ) , foi um pesquisador chamado B. Morpurgo ( em 1897 ) que publicou o primeiro estudo mostrando evidência direta entre exercício físico e hipertrofia ( não hiperplasia ) do músculo sartório. E parece que Morpurgo NÃO usou o clássico treinamento de força, mas sim o treino de corrida ( amostra de cachorros ). Morpurgo chamou de ‘ work-induced hypertrophy’ ( hipertrofia induzida pelo trabalho ). Como o estudo de Morpurgo envolveu corrida e cachorro, ainda deixava uma brecha para os céticos questionarem se o treinamento de força poderia causar a mesma coisa, e se seria extensível aos humanos . Ciência é assim mesmo. Não tem vergonha de questionar o que é aparentemente óbvio. E isso é uma importante qualidade da ciência. Depois de Morpurgo teve muita gente associando indiretamente o treinamento de peso com hipertrofia, mas sem provas diretas. Veja um resumo: >> Teve o crescimento da modalidade conhecida como fisiculturismo; >> Teve estudo mostrando hipertrofia do músculo masseter induzida por mastigação excessiva; >> Teve a famosa teoria da resposta trifásica ao estresse, de Hans Selye, também conhecida como “Síndrome da Adaptação Geral” (SAG), proposta na década de 1940 . A propósito, eu dei uma boa explicação sobre a SAG e sua importância na explicação da hipertrofia muscular, num post chamado Por que a hipertrofia acontece? >> Na década de 1940 ainda tiveram os trabalhos de Thomas Delorme, criador da técnica pirâmide , que relatavam que o treinamento progressivo com peso promovia aumento do volume muscular. Mas esse volume seria hipertrofia? Ou hiperplasia? Ou retenção hídrica? Eram questões científicas ainda sem respostas inscontestáveis. Eu fiz um vídeo bem legal ( clique no tempo 0:19:48 ) onde, entre outras coisas, eu falo da importância de T. Delorme para a popularização do treinamento de força. >> Na década de 1960 as coisas ficaram sofisticadas. Começaram a surgir estudos com biologia molecular ( RNA e DNA ), com uso de radioisótopos, com microscopia eletrônica e, mais no final, com imuno-histoquímica. Teve estudo indicando que os diâmetros de miofibras e miofibrilas eram geralmente maiores em ratos treinados comparado a ratos não treinados. Mas apesar de toda essa sofisticação, nada foi feito relacionando ‘treinamento de força e hipertrofia muscular esquelética em humanos ’. >> Teve ainda, em 1967 o clássico estudo de Alfred L. Goldberg , que introduziu o modelo de remoção cirúrgica de músculo sinergista. Costumamos chamar de ‘ablação sinergista’. Neste modelo corta-se o tendão ( tenotomia ) de um músculo da pata de roedores, o que obriga os músculos restantes a fazerem mais esforço para suportar o peso do animal. E isso gera muita hipertrofia, e muito rapidamente ( em poucos dias ). Esse modelo foi uma revolução. Apesar de críticas de que não representaria bem a hipertrofia induzida por carga externa, ainda é uma técnica muito usada ( com adaptações ). É sempre bom lembrar que hipertrofia também ocorre como um processo natural. Um bebê não tem células do tamanho de um adulto. Essas células aumentam com o tempo. Isso sempre fez alguns hipotetizarem que a ‘hipertrofia induzida por carga’ poderia ter mecanismos diferentes dessa hipertrofia natural. E veja como a história é curiosa. Outro dia vi um guru desse de 7 a 8 milhões de seguidores dizendo que a hipertrofia induzida pelo treinamento de força ocorre por causa do aumento de hormônios anabólicos induzidos pelo próprio treinamento. Hoje temos absoluta convicção de que isso é uma bobagem sem tamanho. Em 1975 ( há quase 50 anos ) Goldberg e Cols já haviam publicado uma bela revisão ( um compilado de resultados do seu modelo de ablação ), cujo os resultados deixavam claro que a hipertrofia induzida por carga não era dependente de fatores endócrinos ( ex: testosterona, GH, insulina, e hormônios da tireoide ). Claro que hormônios anabólicos exógenos em grande quantidade maximizam os ganhos de massa muscular, mas a hipertrofia induzida por treinamento de força pode ocorrer sem mudança hormonal, mostrando que o mecanismo mais importante é outro ( ou outros ). Tudo indica que o mecanismo é a sobrecarga enfrentada pelas miofibras. Tenho vários posts sobre mecanismos da hipertrofia muscular. Seguem alguns: Quais os Mecanismos da Hipertrofia Muscular? Mecanismosda Hipertrofia Muscular: As Vias Moleculares (Cascata Hipertrófica) Estresse Tensional ou Mecânico Causa Hipertrofia Muscu lar? Mas, voltando a história: >> Teve ainda, em 1969, um estudo super sofisticado com humanos, feito por Kenneth A. Penman . Ele usou microscopia eletrônica, o que lhe permitiu investigar tamanhos de sarcômeros, de miosinas, de actinas, e a distância entre essas estruturas. Entretanto, estranhamente, ele não mediu o tamanho do músculo e das células, e com isso ficamos sem saber se houve hipertrofia. E a amostra dele era bem pequenininha. Eram 2 pessoas por grupo ( 3 grupos ) fazendo treinos diferentes. No ano seguinte ( 1970 ) K. A. Penman publicou outro artigo para se redimir... O estudo envolveu novamente microscopia eletrônica em humanos. Nesse trabalho ele incluiu 3 estudantes, os quais foram submetidos a 10 semanas de um treinamento que envolvia força dinâmica e isométrica, e corrida em escada. Dessa vez ele mediu a circunferência da coxa e diâmetro de células. E, curiosamente, ele não encontrou diferença nessas medidas. O que ele encontrou foi aumento no número de filamentos de actina ao redor de cada miosina, aumento na concentração de miosina e diminuição da distância entre os filamentos de miosina. Esse último resultado fez ele sugerir que os filamentos de miosina ficaram mais empacotados ( aumentou a densidade) , conforme ilustra essa figura abaixo, que está no artigo original dele. Veja como a figura da direita mostra as miosinas ( círculos maiores ) mais próximas das actinas ( círculos menores ) . E isso bate bem com a discussão que eu fiz no post sobre Hipertrofia Muscular: Só Sabe o Conceito Quem NÃO Pensa Demais . Lá eu disse que é fisicamente possível aumentar a densidade e massa sem aumentar o volume muscular. >> Parece que antes, em 1962, Jonas Bergstrom fez um estudo com humanos onde examinou adaptações do tecido muscular esquelético ao treinamento de peso. Mas infelizmente eu não consegui acesso ao artigo. Nem mesmo ao resumo. E o que Roberts et al. (2023 ) falaram sobre o estudo dele não permite ter clareza como o estudo foi feito. >> Em 1972, aproveitando-se a técnica de coloração da atividade da ATPase miosínica que havia sido recém proposta, Gollnick et al. compararam as características de fibras musculares de levantadores de peso, atletas de corrida e não treinados. E, como esperado, viram que os levantadores de peso possuíam miofibras maiores. Entretanto, era um estudo transversal, o que sempre gera margem para dúvida, inclusive porque nessa época os anabolizantes já faziam sucesso. >> Depois veio um estudo bem conduzido, feito por Thorstensson e Cols, em 1976 . Tudo indicava que o gol sairia do ' paper ' deles. Esse estudo envolveu treinamento de força progressivo em humanos com reps até ou perto da falha ( 3 séries de 6 reps ), 3 vezes por semana, por 8 semanas ( n = 14; jovens de 19 a 31 anos ). E olha o que aconteceu: O treinamento chegou a aumentar a força em 67%, mas, estranhamente, a circunferência da coxa e principalmente a ‘área de secção transversa’ de fibras musculares NÃO foram modificadas pelo treinamento. Como é possível? Uma possibilidade que vejo é que os miofilamentos podem ter ficado mais empacotados. Mas é uma especulação minha, pois os autores não mediram isso. O que os autores efetivamente mediram, e que fortalece minha tese, foi o seguinte: Usando uma estimativa a partir de medidas de um isótopo específico do potássio, eles concluíram que a massa magra e a massa muscular total aumentaram . Ou seja, aumentou a massa, mas não o volume. Isso estaria alinhado com a minha tese e com os resultados de Penman (1970), que contei acima. Caso o estudo do Jonas Bergstrom, que eu não tive acesso, não tenha sido o primeiro a mostrar relação direta entre treinamento com peso e hipertrofia muscular humana, então o estudo de Thorstensson e Cols (1976) pode ter sido o primeiro a mostrar que o treinamento de força aumentava massa muscular . Mas... ...Perceba que aumentou a massa muscular, mas não o volume! E hipertrofia se mede pelo volume. Pelo menos essa é minha defesa ( leia depois meu post ). Se a gente considerar volume como medida correta da hipertrofia, então teríamos chegado a 1976 ainda sem evidência incontestável de que o 'treinamento com peso causa hipertrofia muscular esquelética humana '. Penman, primeiro, e depois Thorstensson e Cols, poderiam ter feito o gol, mas a bola bateu na trave. Parece mentira que demoramos tanto para cientificamente provar a relação causal entre 'treino com peso > hipertrofia muscular esquelética humana'. Algo aparentemente óbvio há milênios. Segundo Roberts et al. (2023 ) , ainda no finalzinho da década de 1970 surgiram alguns estudos confirmando essa relação tão procurada. Mas eu não vou dar o troféu para ninguém, pois há sempre o risco da gente errar. Inclusive Roberts et al. (2023 ) citam um estudo que teria mostrado tal relação, mas eu lí o artigo citado e não vi o que dizem ter visto. Mas, para finalizar a história, sei que do final da década de 1970 até hoje tivemos um acúmulo enorme de estudos mostrando relação incontestável entre treinamento com peso e hipertrofia muscular. E como o papel da ciência é refinar o conhecimento, somos testemunhas que isso verdadeiramente ocorreu. Hoje dominamos bem as estratégias para aumentar massa muscular. Inclusive já participei de um curso de hipertrofia junto com competentes nutricionistas . Ficou de altíssimo nível. Mas o curso não vende ilusões. Só verdades. E, para concluir, se você deseja aprender a julgar a qualidade metodológica de artigos científicos e a força da recomendação dos resultados, apresento meu livro: Tomada de Decisão Baseada em Evidência: como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde . Em tempos de desinformação massiva e de tantos falsos experts , distinguir evidências reais das falsas é tanto emancipador quanto vital. Esse livro ensina a julgar a qualidade da evidência e a força da recomendação de qualquer artigo científico da área da saúde. O livro oferece um sistema estruturado e didático , com: Modelo de Julgamento : um sistema quantitativo de notas (0 a 100%) em paralelo a um sistema qualitativo (muito baixo, baixo, moderado, alto e muito alto). Separação Estruturada : um framework claro para avaliar o nível de evidência com base em 13 quesitos metodológicos, e o grau de recomendação com base em 9 quesitos formais. Ferramenta Prática (Checklist/Planilha): O conteúdo está associado a uma planilha gratuita que orienta no julgamento da qualidade da evidência e na força da recomendação (e ainda serve como checklist). Script para Inteligência Artificial : fiz um script para a IA ChatGPT poder julgar o nível de evidência e o grau de recomendação . Embora a IA não deva substituir o julgamento humano final, ela facilita a compreensão e diminui a chance de erro humano, pois o script foi projetada para que a IA explique a razão das notas dadas a cada quesito. E se você quiser ver o uso prático, passo a passo, da aplicação do meu livro, acesse o post: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos . A polilaminina envonvel outra história para ficar bem de olho. Acesse https://www.wellingtonlunz.com.br/blog para mais posts. Você também pode se inscrever na Newsletter para receber novos posts. E se quiser citar essa postagem, pode ser mais ou menos assim: Lunz, W. Hipertrofia muscular: Quanto você sabe? Ano: 2024. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/historia-da-hipertrofia [Acessado em __.__.____]. Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.
- MTor Suplemento: Só é Útil Para o Vendedor
caixa de suplemento Mtor Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Se você chegou aqui procurando respostas por uma das perguntas da lista abaixo , e não quer jogar seu suado dinheiro fora, então leia esses dois posts do meu Blog: MTor e HMB: A PROMÍSCUA relação entre farmacêuticas e médicos(as) Não jogue seu dinheiro no MTor (ou LIXO) Para que serve o MTOR? Para que serve o medicamento mTOR? Para que serve o suplemento mTOR? Quais os benefícios de MTOR? MTOR suplemento Remédio MTOR Quem deve tomar MTOR? Quais os efeitos colaterais de MTOR? Como usar o MTOR? MTOR engorda MTOR hipertrofia MTOR preço MTOR bula MTOR emagrece Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.
- Não Jogue Seu Dinheiro no MTor (ou LIXO)
Resumo : vejo muitos gastando fortunas com suplementos inúteis, como o MTor ( uma fraude ). Uma consulta com uma/um nutricionista experiente poderia evitar esse desperdício e trazer resultados reais. O desperdício com suplementos pode ser "eterno", enquanto com nutricionistas não. Em tempos de desinformação, é fundamental valorizar aqueles/as com milhares de horas de estudos e práticas, e não com milhares de curtidas ou milhões de reais investidos em marketing. Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) “ Quanto custa uma consulta nutricional ?” Eu poderia fazer a mesma pergunta para qualquer outra profissão, mas hoje minha história tem a ver com ‘nutricionista’. E com tomada de decisão inteligente. E, calma, que você já vai entender a relação com o suplemento MTor. A resposta que costumamos dar a essa pergunta ( Quanto custa uma consulta nutricional? ) é de que não é um custo, mas ‘investimento’ à saúde. Mas de tanto respondermos que é investimento, as pessoas já colocaram esse conselho no escopo das coisas que não ecoam mais nas dobras corticais do cérebro. Acho até que já nem ouvem mais. É o tipo de conselho que entra por um lado do meato acústico de uma orelha, e sai pelo outro, sem vibrar o trio ‘martelo, bigorna e estribo’. Mas a história de hoje é para mostrar que, além de investimento, é também ‘economia’. Vejo com tristeza o tanto de gente torrando milhares de reais em suplementos que valem NADA. Depois leia meu post Hipertrofia: Lamento, Mas SUPLEMENTOS Servem Para Praticamente Nada. Vamos à história. E será rápido, prometo. Recentemente eu fiz um post sobre a promíscua relação entre farmacêuticas e médicos ( esse ); na ocasião, dei ênfase à sacanagem do HMB glamourizado na forma de uma caixinha azul chamada MTor. Depois dedique uns minutos na leitura ( link ), pois poderá salvar uma grana sua, de amigos ou de familiares. É o post mais lido aqui do blog, e o qual recebo mais agradecimentos. Primeiro devo advertir que não generalizarei o/a nutricionista, assim como eu não generalizo profissionais de outras profissões. Vou falar especificamente de quem tem formação sólida, experiência e ética. Acho que o post do MTor é um bom exemplo do que eu quero dizer. Por preocupações éticas, também não darei informações que permitam identificar as personagens da história. Vamos lá! Uma nutricionista muito experiente em casos clínicos ( entre outras coisas ) foi recentemente fazer um atendimento domiciliar. Tratava-se de uma senhora bastante idosa e debilitada pelo impiedoso tempo. Um caso de desnutrição causado por dificuldades relacionadas à incapacidade motora do ato de mastigar. O ideal, claro, seria que a família tivesse procurado a nutricionista antes; mas, nesse caso, talvez a família tenha sido desorientada. A nutricionista investigava o histórico clínico da idosa, quando a família apresentou a ela a prescrição de um suplemento que havia recebido de um médico. Agora adivinhe qual era o suplemento? S immmm, o MTor. Caso você não seja alguém que me acompanhe por aqui, não deixe de ler o MTor e HMB: A PROMÍSCUA relação entre farmacêuticas e médicos(as) . Sabe quanto pagaram em uma caixinha? Aproximadamente 300 reais. E estava prescrito para a família comprar mais uma caixa. Seriam 600 reais no LIXO. E, certamente, iriam continuar comprando pelo resto da vida, porque se o corpo melhorasse, iriam julgar que o foi devido ao Mtor; e se não melhorasse, iriam achar que não foi suficiente. A ilusão é o principal motor da economia. Não sei exatamente qual é o valor da prestação de serviço da nutricionista desta história, mas tenho certeza de que se a família a tivesse chamado antes de comprar o primeiro MTor, só o dinheiro economizado teria pagado com sobras o atendimento nutricional. E, para além da economia, teriam ganhado os benefícios das orientações práticas e nutricionais, que são feitas a partir de cálculos delimitados pelo conhecimento científico acumulado, o que teria ajudado a postergar ou evitar aquele tipo de deterioração da saúde da idosa. E toda vez que eu vejo coisas como essas eu fico muito triste, porque poderiam ser evitadas. Seria também mais barato. Vejo tanta gente me falando que usa isso ou aquilo porque viu um influencer no Instagram ou no YouTube, cuja “certificação” profissional de maior peso é ter muitos milhares ou milhões de seguidores. E qual é a relação entre número de seguidores e qualidade profissional? Por exemplo, tem crescido muito o número de influencers criados por inteligência artificial. São personagens fictícios, mas que acumulam muitos milhares de seguidores. Um caso famoso é o perfil Emily Pellegrini. Uma “modelo” criada por inteligência artificial, que após 4 meses de criada já acumulava mais de 200 mil seguidores. Recomendo a leitura dessa reportagem aqui . E seu criador tem lucrado com a invenção. Há inclusive um "suplemento" formulado por IA, chamado peptistrong, que promete milagres, cujos artigos produzidos até então foram feitos por funcionários da fabricante ou por gente bem paga para isso. E qual funcionário ou beneficiado por muito dinheiro jogará contra sua fonte financeira? Em resumo: nunca considere estudos com esse nível de conflito de interesses. Mas fica claro que para ter seguidores basta entregar o que a audiência quer. E se a maioria da audiência quisesse conhecimentos elaborados, quase todos os programas de TV e vídeos do YouTube já teriam sido sepultados. Claro, sempre há exceções. Mas considero quase impossível eu me tornar um influencer. Por exemplo, eu insisto com os meus e minhas estudantes que NÃO estou na Universidade para entregar o que eles querem, mas sim o que eles precisam. Senão era só rolar a bola, aumentar a área do gol e retirar o goleiro da frente. O caso Emily é apenas um de muitos. E talvez seja o caso menos ruim, pois pior mesmo são os perfis reais com formação real na área ( ou coisa parecida ), mas que não passam de vendedores de ilusão ou de esperança. Devo alertar q ue a esperança NÃO é a última que morre. A esperança é frequentemente aquilo que NÃO nos deixa morrer. Há prova científica disso. Entretanto, essa característica da esperança pode ser usada para o mal. Veja: Temos na história da humanidade crimes de dimensões sociais inimagináveis ( ex: holocausto ) e crimes circunscritos a um pequeno território ( ex: maníaco do parque do Ibirapuera ) em que os criminosos instrumentalizaram a esperança ( pela liberdade ) para conter a revolta das vítimas. Estou dando exemplos de crueldades terríveis de relembrar, mas é no sentido de evidenciar como a esperança pode ser usada de má-fé. No âmbito comercial, vender esperança funciona sempre para o vendedor. Em vez de muitos milhares de seguidores, eu prefiro quem tenha muitas milhares de horas de estudo e vivência real bem calibrada pela jornada da vida. E esse post é um registro prático do porquê é melhor essa preferência. Um parênteses: após eu ter publicado este post, uma pessoa fez contato por e-mail e relatou o seguinte ( só retirei o que é necessário para garantir o anomimato dela ): Boa noite! Estou, surpresa, com o conteudo que li! Uso o MTOR , há mais de 1 ano. Muito caro, e, não vi, ainda, nenhuma melhora. fui diagnosticada, em 2021, com osteoporose severa (...). Estava, consultando preço mais acessivel do MTOr e, ainda, não comprei, ao ler, essa mensagem (...) Deus abencoe !!! Eu dei algumas orientações para ela. E apesar da tristeza de eu ter visto mais essa covardia, pois o HMB não tem relação com massa óssea ( mesmo se tivesse, dá para comprar por 30 reais; não precisa pagar 300 ), fico mais confortável em saber que esse post possa impedir que o suado dinheiro dessa pessoa abasteça bilionários despudorados. O Prof Wellington Lunz apoia e recomenda o Instituto Afficere. Agende sua consulta nutricional. E, para concluir, se você deseja aprender a julgar a qualidade metodológica de artigos científicos e a força da recomendação dos resultados, apresento meu livro: Tomada de Decisão Baseada em Evidência: como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde . Em tempos de desinformação massiva e de tantos falsos experts , distinguir evidências reais das falsas é tanto emancipador quanto vital. Esse livro ensina a julgar a qualidade da evidência e a força da recomendação de qualquer artigo científico da área da saúde. O livro oferece um sistema estruturado e didático , com: Modelo de Julgamento : um sistema quantitativo de notas (0 a 100%) em paralelo a um sistema qualitativo (muito baixo, baixo, moderado, alto e muito alto). Separação Estruturada : um framework claro para avaliar o nível de evidência com base em 13 quesitos metodológicos, e o grau de recomendação com base em 9 quesitos formais. Ferramenta Prática (Checklist/Planilha): O conteúdo está associado a uma planilha gratuita que orienta no julgamento da qualidade da evidência e na força da recomendação (e ainda serve como checklist). Script para Inteligência Artificial : fiz um script para a IA ChatGPT poder julgar o nível de evidência e o grau de recomendação . Embora a IA não deva substituir o julgamento humano final, ela facilita a compreensão e diminui a chance de erro humano, pois o script foi projetada para que a IA explique a razão das notas dadas a cada quesito. E se você quiser ver o uso prático, passo a passo, da aplicação do meu livro, acesse o post: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos . A polilaminina envonvel outra história para ficar bem de olho. Acesse https://www.wellingtonlunz.com.br/blog para mais posts. Você também pode se inscrever na Newsletter para receber novos posts. E se quiser citar essa postagem, pode ser mais ou menos assim: Lunz, W. Não jogue seu dinheiro no MTor (LIXO) . Ano: 2024. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/para-que-serve-o-mtor [Acessado em __.__.____]. Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.
- Hipertrofia Muscular: Só Sabe o Conceito Quem NÃO Pensa Demais.
Resumo : o conceito de hipertrofia é muito mais complexo do que parece. A hipertrofia muscular tem sido inferida por medidas uni- (espessura), bi- (área) e tridimensionais (volume). E essas medidas não costumam ter boa correlação entre elas. E massa e volume não são sinônimos. É possível aumentar a massa, sem aumentar o volume (e vice-versa). Proponho nesse post um conceito mais abrangente. Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Hipertrofia vem das palavras hyper e trophia . ‘ Hyper ’ é uma palavra inglesa que denota ‘além’ ou ‘acima’, e ‘ trophia ’ é uma palavra grega que denota ‘crescimento’ ou ‘nutrição’ ( Haun et al., 2019 ). O Oxford Dictionary of Sports Science and Medicine ( Roberts et al., 202 3 ) define hipertrofia como: Aumento do tamanho de um tecido ou órgão como resultado do aumento no tamanho da célula em vez de um aumento do número de células ( hiperplasia ). E se você parar de ler agora, seus problemas estarão resolvidos. Você saberá exatamente o que é hipertrofia, sem tremeluzir as pestanas. Mas se você pensar demais sobre o conceito, talvez conclua que ninguém saiba definir hipertrofia com exatidão. Como sei que quem me segue por aqui é gente corajosa, tenho certeza de que preferirá o incômodo resultado dos pensamentos dedicados. Então siga comigo. Repare que o conceito é de ‘hipertrofia’, e não de ‘hipertrofia muscular esquelética’. Ou seja, é um conceito geral. E o conceito estabelece, na verdade, dois conceitos numa sentença só. Um para hipertrofia e outro para hiperplasia. Ambos estão relacionados ao aumento do tamanho do músculo, mas as causas são diferentes. Na hiperplasia o aumento do músculo é causado pelo aumento do número de células. Entretanto, células musculares esqueléticas de mamíferos são consideradas pós mitóticas, o que significa dizer que habitualmente elas não se dividem (não há mitose; não viram duas). Mas em alguns modelos animais a hiperplasia é um fenômeno facilmente observado. Em humanos, a crença atual é que a hiperplasia não consiga representar mais que 5% a 10% do aumento do músculo. Mas ainda há debate se existe ou não em humanos, e já escrevi um post dedicado só a isso: Hiperplasia Em Músculo Esquelético Humano: isso REALMENTE existe? Embora meu papo hoje seja sobre HIPERTROFIA, podemos fazer uma questão que desafia o conceito da hiperplasia. Seguinte: Se houver divisão celular, mas o músculo não mudar de tamanho, isso seria hiperplasia? Pois o conceito associa hiperplasia ao aumento do tamanho do músculo, e não somente a divisão celular. E é bastante possível um músculo não mudar de tamanho, inclusive porque há células que morrem ou atrofiam, de modo que a divisão de mais células poderia ocorrer sem aumento do tamanho. Mas vou deixar a hiperplasia para outro dia. O que eu quero hoje é ‘cerebrar’ o conceito de hipertrofia. Voltando ao conceito inicial ( do dicionário ), hipertrofia é o aumento do tamanho de um tecido ou órgão como resultado do aumento no tamanho da célula. Pois bem! O conceito coloca ‘célula’ no singular, mas um músculo ou qualquer outro órgão tem células ( no plural ). Por exemplo, se 1000 células aumentassem de tamanho ( 10% cada ), e outras 1000 células diminuíssem de tamanho ( 10% cada ), o resultado líquido seria nenhuma mudança no tamanho muscular . Então teria havido hipertrofia, ou não? Eu acho que essa questão não é tão difícil de responder, porque o conceito diz que para ocorrer hipertrofia tem que haver aumento do tamanho do tecido ou órgão. Então, se a hipertrofia das células não causa aumento do músculo, não seria hipertrofia muscular. Mas as questões que farei irão aumentar em dificuldade. Calma aí que irei numa ascendência. Segue outra questão: E se o aumento do músculo ocorresse por aumento de outras células que temos dentro do músculo, e não pelas células musculares esqueléticas em si? Seria hipertrofia? Achou a pergunta estranha? Na verdade as células musculares esqueléticas não são as células mais numerosas dentro do músculo esquelético. Parece esquisito, né! Mas é verdade. Veja: Em músculos de adultos saudáveis estima-se que para cada 100 células musculares existem ~10 células satélites, 2 linfócitos, 20 macrófagos, 30 células progenitoras fibro-adipogênicas, 13 fibroblastos, 35 pericitos e 200 capilares ( que são constituídos por muitas células endoteliais ). Isso sem considerar a infiltração de células do sistema imune diante de perturbações do tecido ( Roberts et al., 2023 ). Ou seja, fica claro que o número de outras células superam as miofibras. Mas apesar de perder em número, as miofibras ocupam ~85-90% do espaço muscular. Isso porque, na média, a área transversa das miofibras é de 5.000-6.000 micrômetros quadrado, enquanto essas células estromais, que citei no parágrafo anterior, não costumam ultrapassar 2% desse tamanho. E em comprimento as células musculares podem ter vários centímetros, como destaquei no post Se Você Não Sabe a MAGNITUDE, Então Você Não Sabe! Apesar de pequenas, boa parte dessas células são mitóticas, e poderiam se dividir de forma exagerada, sem freios, como ocorre com células cancerígenas. Então, elas poderiam contribuir para a hipertrofia, inclusive porque o conceito fala de ‘aumento do tamanho’ sem especificar quanto. Clique aqui e conheça meu novo livro . Benefícios : (1) Maior autonomia e competência no julgamento da evidência científica; (2) Maior segurança nas decisões pessoais e profissionais; (3) Maior poder contributivo para equipes multidisciplinares; (4) Maior valorização dos pares, clientes e pacientes. Prof. Dr. Wellington Lunz Mas essa questão também não parece difícil de responder, porque o conceito diz ‘aumento no tamanho da célula’ sem especificar o tipo de célula. Então, se o músculo aumentar via outras células, interpreto que seria hipertrofia também. Outra questão agora. Essa desafia um pouco mais o conceito: E se o músculo crescer por causa da retenção de água? Seria hipertrofia? Aqui a história dependerá um pouco. Se o músculo crescer por causa do aumento de água dentro das células, de modo a expandir o sarcoplasma, cairia dentro do conceito de hipertrofia. Ou seja, as células aumentariam e, por consequência, aumentaria o músculo. Certamente não é o tipo de hipertrofia mais desejado, mas o conceito não parece preocupado com o desejante. E essa hipertrofia "aquática" é mais comum do que parece. Leia depois meu post Hipertrofia Muscular: Como Classificar? Mas, e se o aumento do músculo ocorresse por aumento de água no espaço extracelular? Aí complica, porque o conceito diz que é o ‘ resultado do aumento no tamanho da célula’ . Ou seja, o aumento do músculo induzido por aumento de água no espaço extracelular não poderia ser chamado de hipertrofia, já que não houve aumento induzido pelas células. Nesse caso, se o conceito dissesse ‘ aumento do tamanho do tecido’ , geraria menos problema. Mas o dicionário resolveu dar causa à hipertrofia: “ resultado do aumento no tamanho da célula”, e aí complicou . Mas que nome daríamos a esse aumento muscular induzido por outra coisa que não as células? Não sei... sei é que não há nome ainda. Acho que todo mundo chamaria de hipertrofia mesmo, mas não bate com o conceito. Tudo bem que há outros conceitos, embora todos eles sejam questionáveis. Outra questão agora: Suponha que você treine por um tempo, e todas as suas células musculares aumentem suas estruturas internas ( ex: miofibrilas, organelas, citoesqueleto, depósito de substratos orgânicos, etc .). Mas, intencionalmente ou não, suponha que ocorra perda de água, principalmente do espaço extracelular, de modo que o tamanho do músculo fique igual ou menor que antes do treinamento. Ou seja, houve aumento das estruturas celulares, que em tese aumentariam o tamanho das células, mas não houve aumento do músculo. Diríamos que houve hipertrofia, ou não? Bom, o conceito que coloquei lá no início se refere ao aumento do órgão ( e músculo esquelético é o maior órgão do corpo ), então não poderíamos chamar de ‘hipertrofia muscular’, ainda que possa ter havido aumento das células. É interessante que no dia a dia, nas academias de musculação ou no bate papo informal, a gente tem resolvido isso sem perceber. Costumamos dizer para casos assim que a pessoa aumentou a “definição muscular”. Isso nos faz lembrar o fisiculturismo, pois, quando perto da competição, os/as atletas usam estratégias de desidratação. Aí a musculatura fica bem definida. E as miofibrilas provavelmente ficam mais ‘empacotadas’ dentro das células. Também há um debate sobre hipertrofia sarcoplasmática e miofibrilar, sobre o qual já escrevi um post específico ( aqui ). Por outro lado, quando alguém aumenta o volume muscular, costumamos dizer que a pessoa “cresceu”. Ou seja, falamos em ‘definição muscular’ e ‘crescer’, mas sem usar a palavra hipertrofia. E isso, creio, ocorre exatamente porque o conceito de hipertrofia não é tão claro assim. Mas penso que podemos também chamar o aumento do tamanho das células de ‘hipertrofia celular’. Ou seja, não ficar restrito ao tamanho do músculo. No âmbito científico há uma infinidade de estudos que usa a expressão ‘hipertrofia celular’ para diferenciar de ‘hipertrofia tecidual’. Desse modo, no exemplo que dei sobre ‘definição muscular’, poderia ter ocorrido hipertrofia celular, mas não hipertrofia tecidual. Isso já ajuda bastante. Mas agora vou complicar um pouco mais. Não deixe sua coragem titubear. Continue firme: Vimos que se o músculo ou célula crescerem, podemos chamar de hipertrofia muscular ou celular, respectivamente. Então, se crescer, independente da causa ( ex: água, organelas, minerais, proteínas ), tudo será hipertrofia. Entretanto, o músculo pode aumentar tanto em largura como em comprimento. E aí verás que complica bem. Suponha que um músculo cresça em largura ( radial ou transversal ), mas diminua em comprimento ( longitudinal ), de modo que o volume não mude ou até mesmo diminuia. Ou, o oposto, que aumente o comprimento, mas diminua a largura, sendo que o volume não mude ou diminua. Nesse caso teria ocorrido hipertrofia? Pois até houve aumento do tamanho, mas só num sentido. Qual é o sentido que vale? Precisa ser em ambos ou só um? O conceito fala em aumento do tamanho, não diz pra onde. Embora eu esteja teorizando algumas coisas, o aumento no comprimento muscular é um fenômeno claramente demonstrado em alguns modelos animais. Ocorre sarcomerogênese nas extremidades celulares. Um estudo que causou espanto sobre essa capacidade foi publicado em 1993, por Antonio & Gonyea . Destaquei esse e outros estudos no post Hiperplasia Em Músculo Esquelético Humano: isso REALMENTE existe? Por causa de complicações como essas que não sou o único a pensar que a forma mais precisa de representar hipertrofia seria o volume . Como volume é uma medida tridimensional, representaria melhor o tamanho. Entretanto, o volume não tem sido a forma mais comum de expressar hipertrofia, porque, na prática, é mais complicado de medir. Mesmo técnicas sofisticadas, como a ressonância magnética, precisam estimar o volume com cálculos ( embora afirmam que é muito precisa ). Também já fiz um post sobre as diferentes formas de medir hipertrofia: Como Medir Massa Muscular? Há jeito fácil e confiável . Na ciência, as expressões de medidas mais comuns para hipertrofia são a área ( você já deve ter visto coisas como ‘ área de secção transversa’ ) e espessura. Repare essa figura abaixo, que eu fiz para uma palestra. Volume é uma medida tridimensional; a área é bidimensional; e a espessura tem só uma dimensão. Ou seja, essas coisas não são a mesma coisa. A figura mostra que a hipertrofia pode ser representada por modelos de uma dimensão (espessura), duas dimensões (área) e três dimensões (volume) Uma boa revisão sobre as complicações do conceito de hipertrofia é o artigo de Haun et al. (2019 ). Apesar de ter sido publicada na revista Frontiers ( entendedores entenderão ), é uma excelente revisão. Mas, depois de olharem para a figura, podemos fazer duas outras boas questões: >> Há hipertrofia quando ocorre aumento na espessura muscular ( medida 1D ), mas o volume não aumenta, ou até diminui? >> Há hipertrofia quando ocorre aumento na área do músculo ( medida 2D ), mas o volume não aumenta, ou até diminui? Complicado, né? Espessura e área são medidas possíveis para o tamanho, mas podem não se correlacionar bem com o volume. O conceito de hipertrofia lá do início não diz exatamente qual medida usar. No âmbito científico a medida de hipertrofia tem sido feita nas células e no músculo. Há também estimativas via medidas moleculares, mas não vou entrar nisso hoje. Curiosamente, não há boa concordância entre as medidas micro- e macroscópicas. Ou seja, há estudos que encontram aumento do músculo, mas sem ou pouco aumento no tamanho das células. E vice-versa. Recomendo duas leituras sobre isso: Haun et al. (2019 ) e Ruple et al. (2022) . Aliás, mesmo dentro da mesma categoria de medida ( ex: macroscópica ) pode não ocorrer boa correlação, como mostrou Franchi et al (2018) . O que esses autores observaram foi que a mudança percentual na espessura muscular, medida por ultrassom, teve correlação baixa (r = 0,33) com o volume muscular medido por ressonância magnética. Por isso, quando você encontrar artigos dizendo que mediram a ‘área de secção transversa’ ou a ‘espessura’, interprete como ESTIMATIVA da hipertrofia, pois claramente não representam o volume. Ou se você vir artigos dizendo que houve aumento na célula, saiba que não significa que houve aumento no músculo ( e vice-versa ). Já caminhando para o final da postagem, vou fazer o último desafio ao conceito. Embora não seja possível na prática humana, mas o peso do músculo ( massa muscular ) tem sido uma medida comum em modelos animais para indicar hipertrofia. Eu mesmo já fiz isso. Mas massa também não é volume. Veja essas equações abaixo: Massa = volume x densidade ( equação 1 ) Volume = massa / densidade ( equação 2 ) Então, baseado nisso, veja outra questão intrigante: >> Há hipertrofia se a massa muscular aumentar, mas o volume diminuir ou não mudar? Repare na equação 1 que isso é fisicamente possível. Isso ocorrerá se a densidade aumentar, mas o volume não mudar ou diminuir pouco. Então podemos ter aumento da massa sem mudança no volume ( ou até redução ). Mas o conceito de hipertrofia só considera o tamanho, e não a massa. Imagine alguém chegando na academia e pedindo a você, profissional de educação física, o seguinte: Quero aumentar a massa. Aí você responderia com outra pergunta: Quer aumentar a massa ou o volume? Mas você poderia me perguntar se na prática isso é possível. Embora eu não tenha visto ninguém discutindo isso, uma coisa que aprendemos na fisiologia é que proteínas são mais densas que a água. Ou seja, água e proteínas teriam impactos diferentes na hipertrofia. Repare a equação 2. Ela mostra que quanto maior for a densidade, menor será o volume. Isso quer dizer que se um músculo ganhar 100 g de água, dará hipertrofia ( volume ) maior do que se ganhar 100 g de proteínas. Isso ocorre porque a densidade da água é de 1 g/cm3 e a densidade de proteínas é ~1,35 g/cm3 ( Fisher et al., 2004 ). E é uma diferença grande! No livro de fisiologia de McArdle et al . ( 2016; 8ª edição ), eles dizem, num dado momento, que o músculo de uma pessoa que faz treinamento de força é menos denso do que de uma pessoa não treinada ( 1,089 vs. 1,099; g/cm3 ). Você não entendeu errado. A explicação seria que pessoas que treinam com peso tendem a reter mais água no músculo. Com isso o músculo ficaria menos denso, apesar de mais volumoso. Então, voltando ao cliente que quer ganhar mais ‘massa’, talvez você tenha que dizer a ele que é provável que ele ganhe mais volume do que massa. Não que eu creia que ele vá se importar com isso. Então veja que os diferentes componentes dentro do músculo podem ter impacto diferente no volume. Mas eu vou parar por aqui para o texto não ficar muito longo. Só repare que se você tivesse parado de ler nas primeiras linhas, não teria nenhuma dificuldade em responder “ o que é hipertrofia muscular ”. Mas, agora, que você leu tudo isso, que pensou demais , e ainda continuará pensando, há risco de não mais saber o que é. Eis a constatação: A gente fica sabendo menos à medida que estuda mais. E como você poderia ficar um pouco frustrado por eu ter jogado tanta pedra na janela sem dar um conceito alternativo, não fugirei da responsa! Vou dar o conceito que talvez eu use no livro que estou escrevendo. Bom, primeiro eu penso que o conceito de hipertrofia não tem como dar conta de tudo que desejamos. Me lembra um pouco a diferença entre as grandezas escalar e vetorial da física. Uma grandeza escalar precisa basicamente de uma informação ( módulo ; ex: cm, kg ). Isso é suficiente. Mas uma grandeza vetorial é algo que não se resolve com apenas uma informação. É mais complexa. É o caso dos conceitos de força e aceleração. Nesse caso, além de módulo, também é importante sabermos a direção e o sentido, pois, do contrário, ficaria incompleto. Então eu penso que o conceito de hipertrofia tem que incluir ‘volume’, pois vimos ser problemático usar ‘tamanho’. E penso que o conceito não deve tentar definir a causa, pois há sempre o risco de se esquecer algo. Então eu não falaria que hipertrofia é causada por aumento das células. Saber a causa é bem importante, mas cabe a uma pergunta posterior. Então meu ‘conceito de hipertrofia’ ficaria mais ou menos assim: Aumento anormal do volume celular ou tecidual. E meu conceito de hipertrofia muscular esquelética ficaria mais ou menos assim: Aumento anormal do volume da miofibra, do fascículo ou do músculo esquelético. Vou ficar devendo explicar a palavra ‘anormal’ que apareceu no meu conceito, mas podemos usar o conceito estatístico de curva normal para estabelecer pontos de corte. Certamente vez perguntaram a um senhor, simples, com mais de 100 anos, qual era o segredo da longevidade. E ele respondeu: O segredo é não morrer . Errado ele não tá! Revela apenas como as respostas podem ter diferentes densidades. E, para concluir, se você deseja aprender a julgar a qualidade metodológica de artigos científicos e a força da recomendação dos resultados, apresento meu livro: Tomada de Decisão Baseada em Evidência: como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde . Em tempos de desinformação massiva e de tantos falsos experts , distinguir evidências reais das falsas é tanto emancipador quanto vital. Esse livro ensina a julgar a qualidade da evidência e a força da recomendação de qualquer artigo científico da área da saúde. O livro oferece um sistema estruturado e didático , com: Modelo de Julgamento : um sistema quantitativo de notas (0 a 100%) em paralelo a um sistema qualitativo (muito baixo, baixo, moderado, alto e muito alto). Separação Estruturada : um framework claro para avaliar o nível de evidência com base em 13 quesitos metodológicos, e o grau de recomendação com base em 9 quesitos formais. Ferramenta Prática (Checklist/Planilha): O conteúdo está associado a uma planilha gratuita que orienta no julgamento da qualidade da evidência e na força da recomendação (e ainda serve como checklist). Script para Inteligência Artificial : fiz um script para a IA ChatGPT poder julgar o nível de evidência e o grau de recomendação . Embora a IA não deva substituir o julgamento humano final, ela facilita a compreensão e diminui a chance de erro humano, pois o script foi projetada para que a IA explique a razão das notas dadas a cada quesito. E se você quiser ver o uso prático, passo a passo, da aplicação do meu livro, acesse o post: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos . A polilaminina envonvel outra história para ficar bem de olho. Acesse https://www.wellingtonlunz.com.br/blog para mais posts. Você também pode se inscrever na Newsletter para receber novos posts. E se quiser citar essa postagem, pode ser mais ou menos assim: Lunz, W. Hipertrofia muscular: Só sabe o conceito quem NÃO pensa demais . Ano: 2024. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/o-que-e-hipertrofia-muscular [Acessado em __.__.____]. Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor Associado da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.
- Renato Cariani, Polícia Federal e o Fitness.
Resumo : aproveitei o caso 'Renato Cariani', acusado pela PF por envolvimento com drogas, para discutir a origem e o atual significado da palavra “ FITNESS ”. A associação entre fitness e saúde surgiu somente nas últimas décadas. E há uma fratura da lógica em se acreditar que atletas — por serem aptos ( fit ) — são automaticamente saudáveis. Exponho o “paradoxo do corpo saudável”: para ser influenciador de corpo saudável, muitos recorrem a práticas nada saudáveis. Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) No dia que a Polícia Federal ( PF ) concluiu o inquérito que investiga Renato Cariani por tráfico de drogas, ele recebeu o prêmio iBest de melhor influenciador. Em relação ao iBest, não dedicarei um segundo da minha vida para saber o que é. E apesar de 7 milhões de seguidores no IG, eu quase nada sei do Cariani. Ao longo dessas minhas mais de duas décadas na educação física, meu cérebro já automatizou filtros para aquilo que ele considera que devo ou não dedicar atenção. E isso frequentemente me coloca na contramão da maioria. Eu e o Cariani somos indiferentes um ao outro. Cariani terá oportunidade de se defender. Ninguém deve ser condenado sem antes o direito a ampla defesa, nem ser julgado por um juiz ou juiza parcial. Inclusive porque atinge toda família. Algumas pessoas que conversaram comigo não se espantaram com a possível relação do Cariani com tráfico de drogas, mas sim com o tipo de droga. O que a PF acusa Cariani é de usar a empresa dele num esquema que coloca vendedores clandestinos de anabolizantes no patamar de peixinhos recém-nascidos perto de um tubarão-branco de "barbas brancas". Certamente por culpa dos meus mais de 20 anos na educação física ( já vi de quase tudo ), a única coisa que conseguiu me chamar atenção nessa história toda foi o fato da palavra fitness estar no meio dessa salada, pois todos os veículos jornalísticos chamam Renato Cariani de influenciador fitness . O que fiquei pensando é se o fitness é ( ou não ) inocente nessa história. Te convido a acompanhar meu raciocínio. Clique aqui e conheça meu novo livro . Benefícios : (1) Maior autonomia e competência no julgamento da evidência científica; (2) Maior segurança nas decisões pessoais e profissionais; (3) Maior poder contributivo para equipes multidisciplinares; (4) Maior valorização dos pares, clientes e pacientes. Prof. Dr. Wellington Lunz T alvez os estudantes mais jovens da educação física já estejam acostumados a uma certa separação entre fitness e saúde, pois nas últimas décadas surgiu a expressão wellness , que assumiu o lado health da história. De modo que hoje temos o ' fitness' mais associado a aptidão/desempenho, e wellness mais associado a saúde e qualidade de vida. Particularmente acho importante essa diferenciação conceitual, porque realmente aptidão física não é sinônimo de saúde. A coisa é bem mais complicada. E nem vou entrar hoje no conceito de saúde, porque dá um livro. Mas sabemos que atletas, símbolos do desempenho físico, nem sempre são ou estão saudáveis. Depois voltarei a isso. Mas fitness e saúde foram unha e carne por bastante tempo. Creio até que a maioria das pessoas ainda associa fitness com saúde. O marketing, por exemplo, usa e abusa de colocar corpos atléticos em cenas que representam um ‘cenário saudável’ ( vai do exercício físico até o uso de creme dental ). E é daí que questiono: de onde veio a palavra fitness ? Porque fitness foi associado à saúde por tanto tempo, e por que deixou de ser? Aliás, por que a palavra fitness está no campo das ciências do treinamento físico? Dando uma pesquisada em dicionários online como Oxford, Cambridge e Collins, a gente encontra que fitness pode ser substantivo, verbo e adjetivo, mas que acabam querendo passar as seguintes ideias: Condição de estar fisicamente apto e saudável . Condição de ser fisicamente forte e saudável E também: Qualidade de ser adequado para cumprir uma tarefa específica. O quão adequado alguém ou alguma coisa é. É também usado na biologia para descrever “ a capacidade de um organismo sobreviver e se reproduzir num ambiente específico. ” Mas pesquisando sobre a etimologia da palavra fitness , vi que o uso originário está mais associado a suitable , que tem a ver com ‘adequado’, ‘conformidade, ‘correto’, ‘indicado’, ‘bom’. Um dicionário de etimologia online diz que ‘ fitness ’ teria surgido em meados do século 15, e sua verdadeira origem é hipotética ( incerta ). Na década de 1570 a palavra ‘ fitness ’ significava " estado ou qualidade de ser adequado ". Em 1867 um autor chamado Harvey Spencer escreveu ‘ fitte r’ para caracterizar algo mais apto, em particular ‘ a sobrevivência do mais apto ’. No atletismo, a palavra ‘ fitness ’ foi vista sendo usada em 1869 para descrever algo como: " em condições; devidamente treinado para a ação ". E em 1916 foi usada no fisiculturismo para descrever " alguém dedicado a cultivar a boa forma e a força ", e em 1935 usado em outras áreas da cultura do movimento para representar " estado de boa forma física ". Nesse dicionário de etimologia online tem um gráfico que mostra que depois de 1980 a palavra fitness decolou. Coincide com a época da explosão da ‘ginástica aeróbica’ nas academias norte americanas. Mas nisso tudo que falei aí em cima não vemos a palavra fitness associada à saúde. Mas onde exatamente o fitness passou a incorporar a ideia de saúde? É interessante que a primeira diretriz do Colégio Americano de Medicina Esportiva ( ACSM ), em 1978, fundamentou suas recomendações basicamente em estudos relacionados à ‘aptidão’, e não à saúde, doença ou mortalidade. Só na diretriz de 1995 houve uma inclinação em associar exercício físico com saúde. O Prof Wellington Lunz apoia e recomenda o Instituto Afficere. Agende sua consulta nutricional. Eu creio que foi nessa ‘meiuca’ temporal que o fitness passou a contemplar saúde. Quando uma diretriz afirma sobre uma dada relação entre coisas, ela basicamente está revelando um conhecimento acumulado que é obviamente anterior à própria diretriz. De fato, em 1995 já não se tinha a menor dúvida que ‘aptidão’ ( fitness ) e saúde estavam associados. Embora a relação entre exercício físico e saúde foi percebida há milênios, a ponto do filósofo grego Platão ( 428 - 348 a. C .) ter afirmado muito antes de Cristo que “ o exercício físico metódico poderia salvar e preservar a vida humana ”, a produção do conhecimento científico que efetivamente comprovou que exercício físico era bom para a saúde não tem sequer 100 anos de história. Tudo indica que os estudos pioneiros ( em termos de robustez ) sobre isso foram feitos por Jeremiah N. Morris e cols. na década de 1950. Os resultados de seus estudos mostraram clara associação entre o baixo nível de atividade física com a incidência de doenças cardíacas, angina pectoris , infarto e morte súbita cardíaca. Ou seja, Morris e cols. mostraram que o sedentarismo estava mais associado a doenças e mortes, o que obviamente permitiu inferir que os mais ativos eram mais saudáveis e viviam mais. O que tem sido confirmado de forma reiterada. Aliás, tenho vários posts mostrando isso: Musculação Nos Protege De Doenças Cardiovasculares e Morte Precoce Treinamento de Força Também Reduz o Risco de Doenças Cardiovasculares. Caminhar Diminui o Risco de Morte Fibromialgia: Exercício Físico é a Única Terapia Fortemente Recomendada Idosos: Benefícios da Musculação ou Treinamento Com Pesos Envelhecimento Biológico: O Treinamento Físico Pode Combater? Sobre essas histórias que estou contando nos últimos parágrafos, você poderá ter mais detalhes num artigo cientico que publicamos ( aqui ). Mas, voltando, me parece que a lógica social usada foi: Se os mais aptos são mais saudáveis, e se atletas são muito aptos, então atletas são muito saudáveis. Mas percebam o erro da interpretação dessa estrutura lógica: Se ‘A’ ( aptidão ) está associado a ‘B’ ( saúde ), e ‘C’ ( atletas ) está associado a ‘A’, não significa necessariamente que C e B tenham qualquer relação. Aliás, essa relação, se existisse, poderia até ser inversa. Veja um exemplo: O fulano ‘A’ é inteligente e gosta do produto ‘B’. O fulano ‘C’ é inteligente e odeia o produto ‘B’. Ou seja, A e C são 'fulanos' e tem a ‘aptidão inteligência', mas relação oposta com o produto B. Por falta de compreensão de lógica ( que eu entendo que deveria existir como disciplina obrigatória nas escolas ), há no imaginário popular ( e não só ) a ideia de que atletas são sempre mais saudáveis. E, pior, que seriam referência em saúde. Eu já vi num congresso um vídeo de um atleta de alto rendimento, dos 100 m rasos, que teve uma fratura exposta enquanto competia. O médico que apresentou o caso afirmou que a fratura foi causada por estresse de repetição. O atleta estava em overtraining . Seus ossos eram repletos de microfissuras e desgastes. Mas quem olhasse o shape do atleta imaginaria o oposto. Também tenho um post sobre Overtraining e outro sobre Rabdomiólise . No fisiculturismo os exemplos são ainda mais evidentes. Com frequência muito acima do normal vemos atletas abarrotados de músculos que subitamente morrem. A coisa é tão perversa ( ou pervertida ) que vivemos hoje algo que chamarei aqui de ‘ paradoxo do corpo saudável ’. Que é o seguinte: Para ser um influenciador sobre 'corpo saudável' é preciso submeter o próprio corpo a comportamentos nada saudáveis’ Com frequência vemos gente dando recomendações de como ter um corpo saudável enquanto transpira anabólicos sintéticos. Essa gente tem mais chance ser influencer . Mas, para encerrar, se considerarmos ‘ fitness ’ como ‘ suitable ’, somos obrigados a concluir que Renato Cariani é, de fato, um influenciador fitness , pois a maioria de seus seguidores deve considerar o corpo dele como suitable ( 'adequado', 'indicado', 'correto' ). O fitness , enquanto conceito, não tem qualquer preocupaçao com os meios para conseguir o shape . As drogas também são fitness/suitable , pois são sempre adequadas para alguma coisa. Até a PF é fitness/suitable nessa história, pois cumpriu adequadamente sua função. Enfim, parece que tudo e todos dessa história são fitness/suitable . E parece que eu, talvez por isso não esteja na história, não sou fitness ( amém! ). Como habitual, estou na contramão. E, para concluir, se você deseja aprender a julgar a qualidade metodológica de artigos científicos e a força da recomendação dos resultados, apresento meu livro: Tomada de Decisão Baseada em Evidência: como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde . Em tempos de desinformação massiva e de tantos falsos experts , distinguir evidências reais das falsas é tanto emancipador quanto vital. Esse livro ensina a julgar a qualidade da evidência e a força da recomendação de qualquer artigo científico da área da saúde. O livro oferece um sistema estruturado e didático , com: Modelo de Julgamento : um sistema quantitativo de notas (0 a 100%) em paralelo a um sistema qualitativo (muito baixo, baixo, moderado, alto e muito alto). Separação Estruturada : um framework claro para avaliar o nível de evidência com base em 13 quesitos metodológicos, e o grau de recomendação com base em 9 quesitos formais. Ferramenta Prática (Checklist/Planilha): O conteúdo está associado a uma planilha gratuita que orienta no julgamento da qualidade da evidência e na força da recomendação (e ainda serve como checklist). Script para Inteligência Artificial : fiz um script para a IA ChatGPT poder julgar o nível de evidência e o grau de recomendação . Embora a IA não deva substituir o julgamento humano final, ela facilita a compreensão e diminui a chance de erro humano, pois o script foi projetada para que a IA explique a razão das notas dadas a cada quesito. E se você quiser ver o uso prático, passo a passo, da aplicação do meu livro, acesse o post: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos . A polilaminina envonvel outra história para ficar bem de olho. Acesse https://www.wellingtonlunz.com.br/blog para mais posts. Você também pode se inscrever na Newsletter para receber novos posts. E se quiser citar essa postagem, pode ser mais ou menos assim: Lunz, W. Drogas, Renato Cariani, Polícia Federal e Fitness... Uma salada danada! Ano: 2024. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/drogas-renato-cariani-polícia-federal-e-fitness-uma-salada-danada [Acessado em __.__.____]. Acesse outras postagens do blog : Proteína para hipertrofia: Quanto mais, melhor? Por que não consigo ganhar massa muscular? Lamento, mas SUPLEMENTOS servem para praticamente nada. Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.
- Se Você Não Sabe a MAGNITUDE, Então Você Não Sabe!
Resumo : desconfie de qualquer afirmação que use adjetivos como “melhor”, “pior”, “rápido”, “lento”, “aumentou” ou “reduziu” sem apresentar a magnitude do efeito. Inconscientemente, nosso cérebro preenche lacunas com referências e preferências pessoais, distorcendo a percepção da realidade. Apresento exemplos concretos disso. Ressalto que esse erro é comum também nas redes, marketing e até em publicações científicas. Sempre questione “ Qual é a magnitude? ” antes de acreditar, repetir ou "ensinar" qualquer informação. Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Quero dar um importante aconselhamento comportamental pertinente ao conhecimento científico ( embora valha para a vida também ). Mas, antes, eu preciso contextualizar. No perfil do instagram que já tive ( não tenho mais ), voltado basicamente para profissionais da saúde, eu fiz um desafio nos stories perguntando: Qual é o tamanho médio de células musculares esqueléticas . Eu dei quatro alternativas, e as pessoas escolhiam a que achavam estar correta. E apenas 6% acertaram a alternativa correta. Calma que entenderá onde quero chegar. Não há problema em não saber tal resposta, pois o valor PRÁTICO desse conhecimento é nulo para quem prescreve treinamento físico no dia a dia. Entretanto, há um valor PEDAGÓGICO imenso nesse e outros testes que já fiz. Explico: Por que o percentual de erro foi tão grande? Minha hipótese neurocientífica é a seguinte: Toda vez que recebemos informações na forma basicamente de adjetivos ou verbos qualificadores ou comparadores ( ex: ‘melhor’, ‘pior’, ‘bom’, ‘ruim’, ‘rápido’, ‘lento’, ‘aumentou’, ‘reduziu’, ‘causou’, etc. ), sem que venham acompanhadas de uma expressão QUANTIFICADORA ( magnitude ), nosso CÉREBRO buscará algum referencial métrico para quantificar. A gente nem percebe. É tudo inconsciente. Um bom exemplo para entender o que estou chamando de métricas não percebidas ocorre quando estamos dirigindo numa rodovia, e desejamos fazer uma ultrapassagem. Numa situação dessas nosso cérebro faz cálculos complexos: ‘O cérebro precisa colocar na equação a velocidade do carro que estamos dirigindo e do carro que está a frente; precisa avaliar o comprimento do carro da frente e o comprimento da reta da rodovia; também julga a potência do carro que estamos dirigindo, a velocidade de um eventual outro carro que venha na contramão, e se há ou não acostamento na rodovia’. Enfim, tudo isso em poucos segundos. Mas não temos a menor condição de dizer conscientemente qualquer número que nosso cérebro tenha usado nos cálculos. É uma equação complexa que nem percebemos que fazemos. Mas voltando a minha hipótese. Quando dizemos ou quando nos dizem que algo é ‘ melhor, pior, bom, ruim, rápido, lento, aumentou, reduziu, preveniu, causou, etc .’, nosso cérebro vai ancorar esses qualificadores a alguma métrica quantificadora. Assim como no exemplo da rodovia, serão valores baseados em grande parte nas experiências ( memória ). Veja: Quando, por exemplo, fazemos uma graduação na área da saúde, na disciplina de biologia aprendemos a ver células em microscópios. E isso nos remete às coisas invisíveis. Portanto, muiiito pequenas. Então, o que nosso inconsciente faz quando ouve ou lê a palavra célula? Ele certamente ancora num ‘valor’ ( magnitude ) que remete às coisas invisíveis. E essas coisas estão no nível dos micrômetros para baixo. De modo que quando somos desafiados a responder sobre qual o tamanho de uma célula, o valor que será verbalizado virá na forma do que chamamos de ‘intuição’. Ou seja, é o inconsciente apresentando para a consciência um número que faz sentido. O Prof Wellington Lunz apoia e recomenda o Instituto Afficere. Agende sua consulta nutricional. Então, recapitulando. Qual o tamanho médio de células musculares esqueléticas? Se você pensou na casa dos nanômetros ou micrômetros, terá errado como a maioria. Pois a maioria das células musculares esqueléticas está na casa dos centímetros. Para você ter ideia, as maiores miofibras esqueléticas conhecidas são do músculo sartório, que em um adulto pode variar de 20 a 50 cm, tendo média de ~40 cm. Isso vale também para unidades motoras lentas ( ou rápidas ). O que é algo lento? Se aprendemos na graduação sobre unidades motoras ‘lenta’ ou ‘rápida’, mas sem que o/a professor/a tenha expressado a magnitude disso, nossos cérebros irão fixar um valor que esteja nas crenças inconscientes sobre o que é algo lento e rápido. Isso poderia ser ancorado em algo lógico para o cérebro como o seguinte: 'Se eu faço ações musculares de ~1 segundo na fase concêntrica, e ~1 segundo na excêntrica, então pode parecer lógico para o cérebro vincular a velocidade das unidades motoras nisso. É um tipo de ‘lógica’ usada pelo inconsciente para diminuir o desconforto da NÃO resposta'. Mas, para você ter ideia, o tempo de contração de uma unidade motora lenta é ~100 milisegundos. Ou seja, a décima parte de um segundo. Isso é lento? Não é lento para nossas crenças e referências do dia a dia, mas é lento quando comparado com as unidades motora rápidas, que contraem num tempo menor que a metade desse valor. E por que é tão mais rápido que nossas ações musculares? É porque as ações musculares não são produto de uma única célula trabalhando, e a velocidade de " saída " não é a mesma que a velocidade de " entrada ". Pense em você empurrando um caminhão. A força ( massa x aceleração ) que você impõe não gera no caminhão uma aceleração igual a quando você usa a mesma força para empurrar um carrinho de brinquedo. Mas, você deve estar me perguntando agora onde está o valor PEDAGÓGICO disso tudo, e onde entra o tal do aconselhamento que eu daria? Vamos lá! Está no fato de que nas redes sociais, e nas conversas informais, e no marketing e até mesmo no mundo acadêmico-científico, há muita gente dizendo que algo é “ melhor, pior, bom, ruim, rápido, lento, aumenta, reduz, previne, causa, etc .” sem dizer a MAGNITUDE disso. Semana passada fiz um post ( aqui ) onde eu comentei de um artigo de revisão que mostrava várias pesquisas que apontavam que o HMB ( hidroxi-metilbutirato ) gerava resultados positivos, mas a revisão não dizia a magnitude . Falei também do panfleto da farmacêutica ( aqui ) , a qual fez a mesma coisa. Isso não é à toa. Ao dizer que algo é bom sem dizer ‘quão bom’, a farmacêutica deixa para o/a leitor/a atribuir um valor ancorado em suas crenças. Portanto, se a MAGNITUDE não é apresentada, desconfie muito da informação. A propósito, te convido para outro importante post com temática similar: Como NÃO ser Enganado nas REDES SOCIAIS (e na vida)? Use a Ciência . Nele eu ensino como usar uma matriz epistêmica simples e poderosa para não ser enganado nas redes sociais. Posso até aproveitar para desafiar você, meu leitor e leitora, maioria com formação em educação física, que respostas de MAGNITUDE você daria para as seguintes afirmações que fazemos recorrentemente na nossa área: Exercício é ‘bom’ para reduzir colesterol ... mas é bom quanto? Exercício é ‘bom’ para reduzir pressão arterial ... mas é bom quanto? Exercício ‘diminui’ a chance de desenvolver cânceres ... mas diminui quanto? E quantos tipos de cânceres? Exercício ‘diminui’ gordura corporal ... mas quanto? Daria para eu passar o dia fazendo outras questões. Mas faço tais provocações porque vejo muita gente com formação em educação física que fala que exercício é bom para quase tudo, mas não sabe a magnitude de quase nada. E um bom post para você der ideia dessas magnitudes é o seguinte: Musculação Nos Protege De Doenças Cardiovasculares e Morte Precoce Ano passado uma amiga me disse que um médico pediu para ela fazer caminhada porque ela precisava reduzir o colesterol. Eu disse a ela: Tenho uma boa e uma má notícia para você. A má é que a caminhada praticamente não reduz colesterol. A boa notícia é que a caminhada protegerá seu coração e te protegerá contra a morte precoce , mesmo sem reduzir colesterol (leia aqui ). E, claro, eu disse pra ela as magnitudes desse benefício (leia aqui ). Então, resumindo, meu conselho é: NÃO aceite expressões que qualificam e comparam sem que venham acompanhadas da MAGNITUDE ( ainda que aproximada ). Não aceite, inclusive, que você diga para os outros sem ter em mente a magnitude. Auto vigie-se! Ou seja, questione a você mesmo se você sabe qual é a magnitude ( ainda que aproximada, ex: média, mediana, tamanho de efeito, percentual ). Questione sempre ‘ qual é a magnitude? ’. Se a pessoa não souber de cabeça, peça-lhe a referência para você acessar. Isso eu aprendi no mundo científico. Me ajuda a não ser enganado e a não enganar inconscientemente os outros ( um erro que às vezes chamam de ‘erro honesto’, pois não é intencional... mas continua sendo um erro ). E, para concluir, se você deseja aprender a julgar a qualidade metodológica de artigos científicos e a força da recomendação dos resultados, apresento meu livro: Tomada de Decisão Baseada em Evidência: como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde . Em tempos de desinformação massiva e de tantos falsos experts , distinguir evidências reais das falsas é tanto emancipador quanto vital. Esse livro ensina a julgar a qualidade da evidência e a força da recomendação de qualquer artigo científico da área da saúde. O livro oferece um sistema estruturado e didático , com: Modelo de Julgamento : um sistema quantitativo de notas (0 a 100%) em paralelo a um sistema qualitativo (muito baixo, baixo, moderado, alto e muito alto). Separação Estruturada : um framework claro para avaliar o nível de evidência com base em 13 quesitos metodológicos, e o grau de recomendação com base em 9 quesitos formais. Ferramenta Prática (Checklist/Planilha): O conteúdo está associado a uma planilha gratuita que orienta no julgamento da qualidade da evidência e na força da recomendação (e ainda serve como checklist). Script para Inteligência Artificial : fiz um script para a IA ChatGPT poder julgar o nível de evidência e o grau de recomendação . Embora a IA não deva substituir o julgamento humano final, ela facilita a compreensão e diminui a chance de erro humano, pois o script foi projetada para que a IA explique a razão das notas dadas a cada quesito. E se você quiser ver o uso prático, passo a passo, da aplicação do meu livro, acesse o post: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos . A polilaminina envonvel outra história para ficar bem de olho. Acesse https://www.wellingtonlunz.com.br/blog para mais posts. Você também pode se inscrever na Newsletter para receber novos posts. E se quiser citar essa postagem, pode ser mais ou menos assim: Lunz, W. Se você não sabe a MAGNITUDE, então você não sabe! Ano: 2024. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/se-voc%C3%AA-n%C3%A3o-sabe-a-magnitude-ent%C3%A3o-voc%C3%AA-n%C3%A3o-sabe [Acessado em __.__.____]. Acesse outras postagens do blog : Proteína para hipertrofia: Quanto mais, melhor? Por que não consigo ganhar massa muscular? Lamento, mas SUPLEMENTOS servem para praticamente nada. Autor : Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009
- MTor e HMB: A PROMÍSCUA relação entre farmacêuticas e médicos(as)
Resumo : julgo o chamado suplemento MTor como enganação , fraude e imoral . É enganação porque é vendido entre 300 e 400 reais, mas seu princípio ( HMB; hidroximetilbutirato ) pode ser encontrado por menos de 30 reais. Usam ainda o rótulo MTor que, à primeira vista, faz o leitor pensar que é a proteína mTOR ( mas não tem qualquer relação ). É fraude porque o HMB é um antigo "suplemento" que nunca teve comprovação científica de eficácia. É imoral ( covarde e nojento ) porque se assemelha ( e talvez seja ) a um esquema financeiro entre farmacêutica e médicos/as aderentes. Explora a boa-fé e a vulnerabilidade das pessoas. Deveria ser tipificado como crime, mas, no Brasil, crime quase sempre depende da classe social. Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Estou enojado com a relação promíscua entre farmacêuticas e parte dos(as) médicos(as). Se fossem pessoas pobres fazendo o que eles têm feito, provavelmente seriam taxados de bandidos. Me fez lembrar uma bem conhecida cultura imoral: “ ricos que são pegos com drogas, são chamados de usuários; mas pobres são chamados de traficantes ”. E não estou defendendo ninguém, apenas destacando que os rótulos dependem do capital ( financeiro e social ). Mas vamos à história de hoje: Um amigo estava sentindo dores na região posterior da coxa e glúteo. Por recomendação minha ele foi ao ortopedista, o qual solicitou uma ressonância magnética, que confirmou lesões antigas e recentes. Olhei o laudo e minha interpretação era de que meu amigo, que é um adulto de ~45 anos de idade, precisava fazer treinamento de força/hipertrofia. Mas recomendei que voltasse ao médico, porque provavelmente precisaria também de anti-inflamatório. Ele então voltou lá. O médico manifestou grande preocupação com o grau de atrofia ( não vi razão para isso, porque é algo que revertemos fácil com exercício ), e prescreveu para ele um “medicamento”, o qual prometia aumentar a massa muscular. Imediatamente pensei: Certamente é algum esteroide anabólico, pois não há outro tipo de droga que consegue produzir aumento de massa muscular significativa . Então meu amigo me mostrou a prescrição. Quando eu li, meu queixo quase caiu! Estava prescrito: “ 1 – MTor............90 unidades (tomar 01 unidade por dia, por 3 meses) ” Tomei um susto, pois quem estuda ‘hipertrofia muscular’ ( como eu ) sabe que a mTOR ( mammalian target of rapamycin ) é uma proteína quinase serina/treonina essencial da cascata hipertrófica ( embora há vias que independem dela ). Aliás, creio até que a maioria dos entusiastas leigos já ouviu falar da mTOR, em particular da via PI3K-Akt-mTOR. Para os interessados, tenho outros posts sobre os mecanismos moleculares da hipertrofia: aqui , aqui e aqui . Na hora não considerei relevante a diferença na escrita: MTor é diferente de mTOR . Achei que era um errinho tolo. Já voltarei a isso. Ao ler a prescrição pensei também: Como assim, já tá liberado no mercado um fármaco de mTOR? Como não fiquei sabendo? Li recentemente uma mega revisão na Physiol. Review sobre hipertrofia ( essa ), e ninguém falou nada sobre isso? Então prontamente perguntei ao meu amigo o seguinte: Esse medicamento é via oral? A pergunta não era desproposital, mas porque sei que não dá para passar uma proteína grande como a mTOR pelo estômago e intestino sem que seja totalmente digerida. A absorção no intestino ocorre no nível de aminoácidos e pequenos peptídeos, e não de proteínas ( para os mais interessados no mecanismo, eis aqui uma excelente revisão ). Meu amigo então respondeu: SIM, é via oral . Nesse momento saquei que tinha sacanagem na história. Fui para a internet e pesquisei mTOR. E fiquei pasmo! Em vez de aparecer algo sobre a proteína mTOR, os primeiros 6 resultados do Google eram de uma farmacêutica vendendo o tal MTor . Cliquei no botão ‘ images ’ do Google, e entre as imagens das vias moleculares de mTOR apareceu essa caixinha azul abaixo: Repare que na caixinha aparece escrito ‘ suplemento de hidroximetilbutirato de cálcio ’. Para quem não conhece, falarei desse bicho daqui a pouco... E repare também que tem exatamente os 90 comprimidos que o médico queria que meu amigo ingerisse. Na sequência eu cliquei no ícone ‘ shopping ’ do Google. E fiquei de cara! Os preços variando entre R$270,00 a R$ 420,00 reais. Mas agora vou te contar por que eu fico enojado: O hidroximetilbutirato é um metabólito da leucina que ficou famoso no final do século anterior. É mais conhecido como ‘ beta hidroximetil butirato’ ou por sua sigla: HMB. O ‘hidroximetilburirato de cálcio’ é apenas uma das formas de se administrar o HMB. Clique aqui e conheça meu novo livro . Benefícios : (1) Maior autonomia e competência no julgamento da evidência científica; (2) Maior segurança nas decisões pessoais e profissionais; (3) Maior poder contributivo para equipes multidisciplinares; (4) Maior valorização dos pares, clientes e pacientes. Prof. Dr. Wellington Lunz Mas se você quiser comprar esse negócio ( o HMB ), você encontrará 120 cápsulas de HMB entre R$18,00 e R$ 34,00 reais. Eu não compraria nem por 1 real, mas dá para você perceber o tamanho da ‘ sacanagem da caixinha azul ’. Deve funcionar como viagra na conta corrente da farmacêutica ( e tudo indica que há cúmplices que se vestem de branco ). Deixe-me explicar um pouco mais o porquê eu não daria 1 real. Ficamos sabendo do HMB pelo estudo de S. Nissen et al (1996) . Como eu entrei na educação física no ano 2000, eu fiquei sabendo lá pelo ano 2002. Nesse estudo os autores mostraram algum efeito positivo para ganho de massa livre de gordura, que eles sugeriram estar associado ao HMB. O problema é que o S. Nissen é o dono da patente do HMB. E quem é do mundo científico não leva a sério estudos feitos por donos de patentes, porque o conflito de interesse é inequívoco. Eu dei uma olhada rápida na internet e vi que S. Nissen e seus colegas do artigo fizeram várias patentes associadas ao HMB ( veja aqui ). O que eu acho um absurdo, pois é uma substância produzida naturalmente pelo corpo humano a partir da leucina ( aminoácido essencial ). Ou seja, o cara patenteou uma substância que o corpo produz. É mais ou menos como se patenteássemos o ATP, o ADP, a fosfocreatina, testosterona, etc. Aliás, vi que o grupo deles tem até uma patente que juntou ‘HMB com ATP’. Depois, nos anos seguintes, vários pesquisadores não conseguiram mostrar que a suplementação de HMB aumentava os ganhos de massa muscular e força induzidos pelo exercício físico, e não gerava alterações na composição corporal quando comparado ao consumo de proteínas de alto valor biológico ( essas que você encontra nas carnes, ovos, leites, etc ). Eu parei de ler sobre o HMB há tempos. Mas olhando rapidamente algumas revisões recentes, vi que existem controvérsias quando se trata de efeito para alguns públicos específicos ( ex: hospitalizados ). Tem que ter cuidado com o que se lê, pois há sempre gente com conflito de interesse disfarçada publicando interesse particular ou de grupos na forma de artigo científico. Lembro a vocês que temos também revistas promíscuas, que publicam quase tudo por dinheiro. Olhei também rapidamente alguns estudos, e percebi problemas metodológicos e de interpretação graves. Se você olhar o folheto do suplemento MTor ( aqui ) verá citado alguns artigos com resultados positivos ( aliás, esse folheto é uma aula de como escrever algo enviesado ). Resumidamente, quais são os principais problemas metodológicos e de interpretação que percebi: 1) Há muitos estudos pré-clínicos ( ex: ratos ) . Mas como já há vários estudos com humanos, não há razão para considerar resultados pré-clínicos na tomada de decisão ; 2) A maioria faz medidas indiretas , como marcadores de dano muscular, vias anabólicas, parâmetros endócrinos, imunológicos ou hematológicos, e massa livre de gordura. Mas esses efeitos não dizem nada sobre hipertrofia, força ou potência; 3) A maioria dos estudos que mostra algum benefício foi com idosos ou pacientes debilitados. Portanto, não dá para estender os resultados desses estudos para grupos fora dessa condição; 4) Os resultados, quando positivos, apresentam tamanhos de efeito muito pequenos, os quais podem ser casuais ou não justificar os custos. Aliás, já fiz um livro para ajudar nessas interpretações; 5) Há estudos com erros metodológicos graves. Ex: comparar suplementação de ‘HMB+proteína’ com grupo controle que não consome a mesma quantidade de proteínas. Ou seja, o efeito pode ser explicado pelo consumo proteico. Gosto de ler artigos de pessoas que eu sei que não tem conflito de interesse no assunto que está escrevendo. O Prof Wellington Lunz apoia e recomenda o Instituto Afficere. Agende sua consulta nutricional. Uma boa e recente revisão sistemática que sinaliza para a falta de evidência entre HMB e massa muscular é a de Stuart Phillips et al (2022) . Detalhe: essa revisão é sobre populações clínicas e idosos, que é onde há mais estudo sugerindo algum benefício do HMB. Para atletas, pessoas treinadas e adultos jovens, o efeito do HMB tem se mostrado nulo ou trivial para medidas relacionadas a força e massa muscular ( veja essas revisões : Sanchez-Martinez et al., 2018 ; Jakubowsk et al. 2020 ). Aliás, no estudo de Phillips et al (2022) eles dizem na discussão: Há um consenso claro de que a suplementação de HMB não aumenta os ganhos musculares e de força induzidos pelo treinamento de forç a. Na verdade, o efeito de qualquer suplemento para o ganho de massa muscular costuma ser pífio em pessoas que fazem treinamento de força e se alimentam bem ( falei disso noutro post ). Isso ocorre exatamente porque não há qualquer estratégia que seja capaz de superar o treinamento de força como estimulador da hipertrofia. Ou seja, basta treinar certo e se alimentar bem. É interessante olhar os artigos que o folheto da farmacêutica cita. Vi lá uma revisão que citou vários artigos com resultados favoráveis ao HMB, mas os autores não citaram “ o quão bom foram os resultados ”. Ou seja, não citam a magnitude . E vi também uma revisão que mostrou tamanho de efeito na casa de 0,20 a 0,30. Além de muito pouco, nem é consensual. Ambas as revisões eram com idosos e pessoas fragilizadas. Houve um estudo ( esse aqui ), citado no folheto, em que os pesquisadores concluíram que a ingestão de HMB durante a internação e alta hospitalar diminuiu a mortalidade e melhorou o estado nutricional de pacientes idosos ( 65 anos ) em tratamento para diversas condições clínicas. Além da condição extrema ( idosos e debilitados ), veja como foi o desenho experimental: O grupo HMB não ingeriu apenas HMB ( 1,5 g/porção ), mas sim uma “mistura” que continha 350 kcal/porção, vários macronutrientes ( ex: 20 g de proteína/porção ) e micronutrientes ( ex: 160 UI de vitamina D/porção ). Mas o grupo controle, que não consumiu HMB, recebeu um placebo com apenas 48 kcal/porção, 12 g de carboidrato e 10 mg de vitamina C. Ou seja, o grupo controle não recebeu as mesmas quantidades calóricas, proteicas e de vitaminas que o grupo HMB. Aliás, se minha memória não estiver enganada, o estudo original de Nissen et al. também usou ‘HMB+ proteina ’. Os professores Stuart Phillips ( canadense ) e Everton Nunes ( brasileiro ) perceberam a esquisitice metodológica desse artigo e enviaram uma carta ao editor apontando esse grave erro ( veja aqui ). Segundo cálculos desses dois pesquisadores, o grupo HMB ingeriu ~30 g de proteína e 525 kcal a mais que o grupo controle. Aliás, na revisão de Phillips et al (2022), eles citam vários outros artigos que cometeram esse mesmo erro grave ( seja intencional ou não ). Portanto, interpretar que foi o HMB o responsável pelos melhores resultados é coisa de gente má intencionada ou desprovida de cognição ( duvido que seja o segundo caso ), pois não dá para afirmar que o efeito foi causado pelo HMB. No tal folheto da farmacêutica, eles citam também uma revisão sistemática com conclusão favorável ao HMB, mas não dizem que a tal revisão incluiu apenas 3 estudos com idosos frágeis. Não há estudo no folheto mostrando bons resultados para pessoas que não sejam idosas ou hospitalizadas. Mas se você ler o panfleto verá que a ideia deles não é vender exclusivamente para idosos e hospitalizados. O texto do folheto começa assim: Suplemento à base de hidroximetilbutirato de cálcio para ADULTOS Mas não estou aqui querendo convencer ninguém a não usar o HMB. Inclusive porque nesses meus 45 anos de vida percebi que é praticamente impossível convencer alguém daquilo que já não esteja internamente convencido, ainda que inconscientemente. Eu estou numa fase da vida que me interessa mais ser feliz e viver em paz. Quem quiser comprar e usar certamente fará com seu próprio dinheiro e corpo, sem causar danos a terceiros. Portanto, não é antiético. Mas minha intenção aqui é destacar a imoralidade da farmacêutica e parte dos(as) médicos(as) envolvidos. Volto a isso para encerrar o post. Aqui na minha história, de um lado temos o médico. Ainda que eu discorde da prescrição do HMB, mas se o referido profissional verdadeiramente acredita no efeito benéfico do HMB, deveria simplesmente prescrever HBM, que custa ~10% do tal MTor ( suplemento, da caixinha azul, que causa ereção na receita dos ofertantes ). Do outro lado temos farmacêuticas que induzem o leitor a erro ao colocar um nome que remete a uma molécula essencial à hipertrofia muscular, mas que nada tem a ver com o produto. Isso certamente é para dificultar o leitor nas pesquisas sobre a validade do suplemento, pois se você escrever mTOR na internet aparecerá 1 milhão de coisas da via molecular. Além disso, é uma forma de higienizar a reputação do HMB, que está maculado pela história. Alguém poderia até dizer que o nome é 'MTor' e não 'mTOR'. Mas é claro que há intenção e gesto nisso. Imagine eu vender um óleo de cozinha qualquer, encapsulado, e chamá-lo de T3STOSTERONA ou TESTO5TERONA. Não é TESTOSTERONA, mas não há boa fé aí. Mas há algo que une farmacêuticas e médicos. Minha hipótese é que essa ponte se chama DINHEIRO. E não teria problema se fosse honesto, justo, ético e transparente. Mas não é o caso. Não é disfarçado por acaso. O leigo não enxerga a ponte ($=$). Ninguém seria inocente de acreditar que o médico aqui da história prescreve MTor por amor ao compromisso científico e social da farmacêutica. Contei esse caso, mas tem acontecido com praticamente todo mundo que conheço, inclusive comigo. Recentemente uma secretária da instituição que eu trabalho me disse que saiu do consultório de uma médica ( do SUS ) com uma receita que era basicamente 3 vitaminas de uma marca estabelecida. Ao chegar na farmácia o atendente disse: Que curioso, várias pessoas têm chegado aqui pedindo exatamente a mesma coisa . Eu também levei recentemente uma bateria de exames a uma médica. Ela interpretou que eu poderia aumentar meu consumo de vitamina D. Ela me prescreveu uma dose mensal ( acho que 58.000 UI ). Não era uma marca definida. Mas, para minha surpresa, quando eu pesquisei por vitamina D com 58.000 UI, eu só achei uma farmacêutica vendendo. Pois, de fato, dá pra fazer vitamina D até com qualquer quantidade UI. Há infinitas possibilidades para disfarçar a ponte. A cabeleireira que cuida dos meus ralos cabelos há décadas, me contou que a mãe dela ( que tem ~90 anos ) foi ao médico, reclamando de cansaço. O médico passou um coquetel de vitaminas na veia. Custo: R$ 600,00. Detalhe: Prescreveu sem ter pedido sequer um exame para ver se tinha algo errado. Entra naquilo que um nobre amigo chama perspicazmente de ' kit faturamento da clínica '. Ou seja, serve apenas para aumentar a receita da clínica. Tenho mais casos para contar, mas ficaria ainda mais longo meu texto. Sei que nessas estratégias percebemos a sacanagem de quem deveria entender que as pessoas desse nosso país tem baixíssima renda. E mesmo a classe média, que luta diariamente para pagar escola de filhos, plano de saúde, aluguel/prestação imobiliária, um carro mais seguro e confortável e todos os seus custos, não tem vivido com reserva financeira tão melhor que os mais pobres. É, portanto, muita covardia. Particularmente eu defenderia como crime, se eu fosse parlamentar. Mas, para finalizar, imagine que eu pegue um líquido inerte qualquer e coloque dentro de cápsulas, e depois numa embalagem bonitinha ( lacrada e rotulada ), chame de T3STO5TERONA, e coloco o preço de R$ 300,00 reais. Aí eu convido você para me ajudar na divulgação do produto, com a promessa de te repassar uma boa margem da grana. Que nome o judiciário daria pra gente? Empresários ou bandidos? E, para concluir, se você deseja aprender a julgar a qualidade metodológica de artigos científicos e a força da recomendação dos resultados, apresento meu livro: Tomada de Decisão Baseada em Evidência: como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde . Em tempos de desinformação massiva e de tantos falsos experts , distinguir evidências reais das falsas é tanto emancipador quanto vital. Esse livro ensina a julgar a qualidade da evidência e a força da recomendação de qualquer artigo científico da área da saúde. O livro oferece um sistema estruturado e didático , com: Modelo de Julgamento : um sistema quantitativo de notas (0 a 100%) em paralelo a um sistema qualitativo (muito baixo, baixo, moderado, alto e muito alto). Separação Estruturada : um framework claro para avaliar o nível de evidência com base em 13 quesitos metodológicos, e o grau de recomendação com base em 9 quesitos formais. Ferramenta Prática (Checklist/Planilha): O conteúdo está associado a uma planilha gratuita que orienta no julgamento da qualidade da evidência e na força da recomendação (e ainda serve como checklist). Script para Inteligência Artificial : fiz um script para a IA ChatGPT poder julgar o nível de evidência e o grau de recomendação . Embora a IA não deva substituir o julgamento humano final, ela facilita a compreensão e diminui a chance de erro humano, pois o script foi projetada para que a IA explique a razão das notas dadas a cada quesito. E se você quiser ver o uso prático, passo a passo, da aplicação do meu livro, acesse o post: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos . A polilaminina envonvel outra história para ficar bem de olho. Acesse https://www.wellingtonlunz.com.br/blog para mais posts. Você também pode se inscrever na Newsletter para receber novos posts. E se quiser citar essa postagem, pode ser mais ou menos assim: Lunz, W. MTor e HMB: A promíscua relação entre farmacêuticas e médicos(as) . Ano: 2024. Link: https://bit.ly/3OhpOqh [Acessado em __.__.____]. Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.
- Hipertrofia: Quanto Mais PROTEÍNA, Melhor?
Resumo : um estudo muito interessante questiona o conhecimento dominante sobre “quantidade de proteína e síntese proteica no pós-treino de força”. Enquanto a visão tradicional diz que acima de ~30 g por refeição haveria um platô de síntese, esse estudo evidenciou algo bem diferente: a síntese continuou aumentando até 12 h após o treino, e a oxidação quase não mudou. A dose de 100 g gerou muito mais síntese do que 25 g. Esses achados se aproximam mais da realidade prática observada em entusiastas e fisiculturistas. Prof. Dr. Wellington Lunz - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) No finalzinho de 2023 foi publicado por um grupo de cientistas holandeses um excelente estudo ( Trommelen et al., 2023 ) sobre ‘quantidade de proteína e síntese proteica no pós treino de força’, cujo os resultados CONTRARIAM o conhecimento dominante. Essa figura abaixo resume o conhecimento atual dominante. Ela sugere que há um limite superior de consumo proteico ( o máximo seria de aprox. 30 g de proteínas por refeição ), de modo que o consumo acima disso geraria um platô na síntese de proteínas, e que o excesso de proteínas seria oxidado para produzir energia. O que o estudo de Trommelen et al. (2023 ) mostrou é algo bem diferente, e está resumido na próxima figura. Até 12h de acompanhamento, o que os autores viram foi que a síntese de proteína continuou aumentando, e a oxidação quase não aumentou ( isso permite inferir que a maior parte é usada para síntese ). E o mais intrigante está resumido na figura seguinte. A síntese foi bem maior para o consumo de 100 g quando comparado a 25 g.; ou seja, não houve o platô sugerido pelo conhecimento dominante. Mas, para que entendam melhor, acho importante uma contextualização histórica. Em 1997, Stuart Phillips e cols publicaram um artigo que veio a se tornar um clássico. Naquela ocasião, eles mostraram que o pico da taxa de síntese de proteína muscular após uma sessão de treino de força ( 8 séries, 8 reps, 80% de 1RM ) ocorreu em 3h ( 112% ). Em 24h e 48h a síntese foi reduzida para 65% e 34%, respectivamente. Isso fez com que muitos leitores acreditassem que as primeiras 3h eram uma 'janela de oportunidade' essencial para se ingerir proteínas. A interpretação que fizeram foi: ‘ Não podemos deixar de comer proteínas nas primeiras 3h ’. E perceba o problema dessa interpretação: Os cientistas desse estudo mediram apenas em 3 pontos temporais ( 3h, 24h e 48h ). Ou seja, interpretar que até 3h é melhor sem saber o que ocorreu em 4h, 5h, 6h, 7h, 8h, etc., é um salto indutivo. Triste é saber que muitos professores doutores contribuíram para essa interpretação. Eu até fiz um post completo sobre os erros de interpretação associados aos suplementos 'pré treino' e 'pós treino': Pré-Treino vs. Hipertrofia: A Nova Invenção Da Indústria Mas vários estudos posteriores, incluindo do próprio grupo do Stuart Phillips, mostraram que consumir proteínas antes, durante, logo após, ou bastante tempo depois do treino dá resultado SIMILAR para hipertrofia muscular. Repare que esse estudo de 1997, do Stuart Phillips, é sobre SÍNTESE de proteína, e não sobre HIPERTROFIA muscular ( massa muscular ). Daí vem a confusão. As pessoas leem artigos sobre síntese de proteínas, mas inferem ( erradamente ) sobre hipertrofia muscular. E por que não são a mesma coisa? Para que ocorra hipertrofia muscular é necessário que a síntese seja superior ao catabolismo proteico. Então, não é só efeito da síntese. Além disso, a síntese proteica não é algo exclusivo de músculo e de miofibrilas. Ocorre em diferentes tecidos e diferentes estruturas celulares. Por exemplo, corredores de longa distância experienciam elevadíssima síntese de proteína depois da corrida, mas não ficam musculosos. Atualmente há técnicas que conseguem identificar aminoácidos que vão para formação de miofibrilas e que vão para outras estruturas e organelas ( ex: citoesqueleto, mitocôndria, reparação tecidual de toda sorte ). E, também, síntese não é um processo linear. A taxa de síntese não é igual entre iniciantes e avançados em treinamento de força ( nem na cinética, nem na magnitude ). No estudo de Stuart Phillips e cols (1997) eles também avaliaram o catabolismo proteico, que foi bastante alta, e altamente correlacionada com a síntese. Ou seja, síntese e proteólise aumentaram. Mas a crença nessa estreita ‘janela de oportunidade’ ( 3h ) existe até hoje ( quase 30 anos depois ). Mas, na ciência, há quem enfatize que é algo bem maior, e alguns chamam de ‘porta de celeiro de oportunidade’ ( barn door ), pois pode ser num espaço de tempo muito mais amplo. Outros estudos depois mostraram que o consumo superior a aprox. 30 g de proteínas gerava um platô da síntese ( conforme a primeira figura ). Esses estudos com síntese de proteína são lindos e sofisticados. Envolvem isótopos estáveis associados a aminoácidos específicos ( normalmente leucina e fenilalanina ). Como esses aminoácidos são ‘marcados’ ( isótopos ), depois de ingerir os cientistas investigam o destino tecidual desses aminoácidos. É muito legal! Entretanto, há coisas que me incomodam nessa história de síntese de proteína. Razão pela qual não leio tudo que aparece sobre o assunto. Explico: Os resultados desses estudos com síntese de proteína não batem bem com nossa realidade prática. Na prática a gente vê que a maioria dos fisiculturistas treina cada músculo de interesse APENAS uma vez na semana, e o ganho muscular é elevadíssimo. Se o pico de síntese de proteína ocorre, por exemplo, entre 3h e 16h ( juntando resultados de vários artigos ), e depois cai em direção ao basal, como é possível um único estímulo semanal gerar ganhos de massa muscular progressivos? E é também intrigante o seguinte: por que estímulos diários ( ou até mais que um por dia ) não geram ganhos de hipertrofia maiores que treinar, por exemplo, 2 vezes por semana? De fato, se o volume de treino for igual, dá o mesmo resultado treinar 2 ou 5 vezes por semana ( já citei muitos artigos sobre isso em posts anteriores ). E, nesse caso, não me refiro só a fisiculturistas. Vale para qualquer pessoa! Ou seja, não tem a ver com eventual uso de anabólicos ( caso tenha pensado nisso no final do parágrafo anterior) . Mas algo que vale enfatizar é que o treino de força por si é mais anabólico que catabólico. Ou seja, o treino de força é o que realmente gera uma oportunidade. Tendo essas coisas em mente, voltemos ao artigo de Trommelen et al. (2023). Vou explicá-lo: Os cientistas deram duas doses diferentes de proteínas ( 25 e 100 g ), tanto via dieta quanto intravenoso, e fizeram medidas em 4h, 8h e 12h. Essa entrega de proteínas ocorreu após uma sessão de treino de força. E viram várias coisas interessantes: 1) O pico de incorporação de aminoácidos nas miofibrilas foi em 12h, sem tendência de diminuir. Ou seja, se eles tivessem medido por mais de 12h, provavelmente viriam que o pico seria depois disso. Enquanto havia aminoácidos “sobrando” na corrente sanguínea ( hiperaminoacidemia ), a síntese proteica não parou. 2) A magnitude da disponibilidade de aminoácidos na corrente sanguínea e de incorporação de aminoácidos marcados foi bem maior para o consumo de 100 g do que para 25 g.; ou seja, 100 g gerou maior hiperaminoacidemia e maior síntese proteica. 3) Os autores não viram taxa de oxidação aumentada de proteínas, mostrando que após uma sessão de treino os aminoácidos são preferencialmente usados para síntese proteica, e não para fornecer energia. Os resultados dos itens 2 e 3 contrariam estudos anteriores que diziam que acima de aprox. 25 a 30 g não haveria incorporação adicional de aminoácidos nas miofibrilas, e que esse excesso seria oxidado. 4) Houve alta correlação ( coeficiente de determinação = 0,96 ) entre consumo de proteínas e balanço proteico positivo. Isso dá uma equação da reta quase perfeita. Ou seja: ‘ quanto mais proteínas, mais síntese ’ ( obs: o estudo permite interpretar até 100 g ). 5) A estimativa deles é que a taxa de síntese proteica no músculo esquelético foi de aprox. 12% a 18%. Ou seja, para cada 100 g de proteínas consumidas, 12 a 18 g foram para a síntese muscular esquelética. E esse percentual foi linear com a duração. Ou seja, mais elevado perto das 12h. E se tivessem medido por mais de 12h, teriam provavelmente visto maior percentual. Como se percebe, nem tudo vai para síntese miofibrilar. Os autores inclusive viram que muitos aminoácidos foram para tecidos conectivos. 6) Curiosamente, a análise de biologia molecular relacionada a fosforilação proteica ( atividade proteica ) não mostrou diferença expressiva de praticamente nada que mediram quando comparado ao controle ( 0 g de ingestão proteica ). E eles mediram muiiiiita coisa relacionada a síntese de proteína ( ex: mTOR, p70SK, 4E-BPE1, RS6), a autofagia (beclin1, LC3b, Atg12 ), a energia celular ( proteína ACC ) e inibidor da hipertrofia ( miostatina ). E teve ainda medida de RNAm de um monte de outras coisas associadas à atrofia. Como os autores fizeram a primeira medida às 4h, a crença deles é que a atividade dessas proteínas são eventos que ocorrem antes das 4h. Seja como for, é intrigante imaginar que uma atividade proteica não sustentada dessas proteínas seja suficiente para manter a síntese de proteínas por mais de 12h, e em escala progressiva ( linear ascendente ). Sobre vias moleculares da hipertrofia, recomendo meus posts: Quais os Mecanismos da Hipertrofia Muscular? Mecanismos da Hipertrofia Muscular: As Vias Moleculares (Cascata Hipertrófica) Quais os Mecanismos da Hipertrofia Muscular? Conheça a Função dos Mecanossens ores E não confunda mTOR com MTor. Fiz um post específico e muito importante sobre isso, pois há gente usando isso para roubar dinheiro dos outros: MTor e HMB: A PROMÍSCUA relação entre farmacêuticas e médicos(as) Sobre a sessão de exercício que foi feita, ainda não contei aqui. Envolveu alguns exercícios, mas podemos focar apenas no quadríceps, pois eles usaram tecido do vasto lateral. E para o quadríceps foram 8 séries ( 4 de leg press e 4 de cadeira extensora ) de 10 reps. A intensidade variou de 65% a 85% de 1RM. Trata-se de um estudo ( síntese proteica ) que tenho pouca experiência do MÉTODO científico, de modo que eu fico refém da narrativa dos autores. Mas esse estudo foi elogiado pelo próprio Stuart Phillips, que é um dos principais nomes ( talvez o principal ) em estudos com síntese de proteínas usando isótopos marcados. Sei que os resultados me parecem menos desalinhados com a realidade prática. Mas, ao mesmo tempo, quando os autores afirmam no artigo que não houve limite superior para a síntese proteica, é preciso uma ponderação: Muitos estudos mostram que consumir mais que aprox. 2 ou 2,5 g de proteína por kg de peso não oferece ganho superior de massa muscular ( ex: 200 a 250 g de proteínas para uma pessoa de 100 kg ). Isso sugere que a ingestão de mais de 100 g de proteína encontrará, em algum momento, um limite sim. Por fim, uma curiosidade que eles contam na introdução: Você sabia que há cobras que ingerem uma enorme refeição ( ~ 25% da massa corporal ) a qual resulta em prolongada digestão de proteínas e de absorção de aminoácidos, bem como taxas elevadas de síntese proteica que ocorrem por até 10 dias ( pasmem! ), e com apenas 5% dessas proteínas sendo oxidadas? Ou seja, quase tudo vai para síntese, e esse processo de síntese ocorre por muiiiitos dias. Os autores citam isso como forma de questionar se em humanos a coisa não poderia ser mais duradoura do que tem se acreditado. E, de fato, nossa experiência com fisiculturistas sugere algo mais perto das cobras do que dos estudos científicos com síntese de proteínas conduzidos até o momento em humanos. E como o tema hoje é sobre "nutrição esportiva", aproveito para divulgar o Instituto Afficere , que é da minha esposa ( Nutricionista, Mestre em nutrição e Doutora em fisiologia ) e sua sócia. Se precisarem de serviços em nutrição de EXCELÊNCIA, lembrem-se do Instituto Afficere . A propósito, há um post dela que pode te interessar: Qual é a Melhor Alimentação Para Ganhar MASSA MUSCULAR? E, para concluir, se você deseja aprender a julgar a qualidade metodológica de artigos científicos e a força da recomendação dos resultados, adquira meu livro: Tomada de Decisão Baseada em Evidência: como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde . Em tempos de desinformação massiva e de tantos falsos experts , distinguir evidências reais das falsas é tanto emancipador quanto vital. Esse livro ensina a julgar a qualidade da evidência e a força da recomendação de qualquer artigo científico da área da saúde. O livro oferece um sistema estruturado e didático , com: Modelo de Julgamento : um sistema quantitativo de notas (0 a 100%) em paralelo a um sistema qualitativo (muito baixo, baixo, moderado, alto e muito alto). Separação Estruturada : um framework claro para avaliar o nível de evidência com base em 13 quesitos metodológicos, e o grau de recomendação com base em 9 quesitos formais. Ferramenta Prática (Checklist/Planilha): O conteúdo está associado a uma planilha gratuita que orienta no julgamento da qualidade da evidência e na força da recomendação (e ainda serve como checklist). Script para Inteligência Artificial : fiz um script para a IA ChatGPT poder julgar o nível de evidência e o grau de recomendação . Embora a IA não deva substituir o julgamento humano final, ela facilita a compreensão e diminui a chance de erro humano, pois o script foi projetada para que a IA explique a razão das notas dadas a cada quesito. E se você quiser ver o uso prático, passo a passo, da aplicação do meu livro, acesse o post: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos . Acesse https://www.wellingtonlunz.com.br/blog para mais posts. Você também pode se inscrever na Newsletter para receber novos posts. E se quiser citar essa postagem, pode ser mais ou menos assim: Lunz, W. Hipertrofia: Quanto mais 'proteína', melhor? Ano: 2024. Link: https://bit.ly/48WnRr8 [Acessado em __.__.____]. Autor : Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br . É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2009.











