Os Critérios de Hill e a Prática Baseada em Evidência
- Blog Prof. Wellington Lunz
- 24 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 29 de out. de 2025
Resumo: nem toda associação significa causa e efeito. Para diferenciar coincidência de causalidade, Austin Bradford Hill propôs, em 1965, critérios que orientam até hoje a interpretação de estudos observacionais. Entre os mais importantes estão: força da associação, consistência, gradiente dose-resposta, temporalidade e experimento. Esses princípios evidenciam que mesmo um estudo observacional pode permitir inferir causalidade — se houver rigor metodológico. Se você deseja julgar evidências corretamente, esse post é para você.

Prof. Dr. Wellington Lunz
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
O delineamento padrão-ouro para inferências causa-efeito na área da saúde é o chamado Estudo Clínico Randomizado (ECR).
Os estudos observacionais, que são vários (ex: coortes, caso-controle, transversal, caso e série de casos, ecológico), possuem diferentes níveis de qualidade, de modo que, geralmente, não permitem inferência causa-efeito.
Mas será que podemos ter confiança de que uma associação observada seja realmente causal em estudos observacionais?
Foi para responder a essa pergunta que o famoso epidemiologista britânico Austin Bradford Hill propôs, em 1965, critérios para permitir inferência de causalidade em estudos observacionais. Hoje são conhecidos como ‘Critérios de Hill’.
Quem foi Austin Bradford Hill?
Um dos epidemiologistas mais influentes do século 20. Embora não fosse médico, mas estatístico, seus trabalhos revolucionaram a compreensão da relação entre cigarros e câncer de pulmão. E, obviamente, impactaram profundamente a saúde pública mundial.
É difícil estimar, mas certamente os trabalhos pioneiros de Hill e seu colega Richard Doll, salvaram milhões de pessoas.
Doll e Hill e o Caso da Associação Cigarro-Câncer
O estudo clássico de Richard Doll e Austin B. Hill, publicado em 1956, foi um marco para a ciência.
Usando um delineamento de coorte, os pesquisadores acompanharam médicos britânicos e demonstraram uma associação muito forte e progressiva entre o número de cigarros fumados por dia e a mortalidade por câncer de pulmão.
A diferença de risco entre os maiores fumantes e os não fumantes foi de cerca de 23 vezes — um resultado tão expressivo que, mesmo sendo um estudo observacional, deixava pouca margem para dúvidas sobre a relação causal.
Na época, o lobby da indústria do cigarro era muito intenso, inclusive com médicos e cientistas cooptados pelo mercado do cigarro. E, apesar dessa forte associação cigarro-câncer, Doll e Hill tiveram seu estudo criticado por ser observacional.
Mas Hill sabia que um experimento controlado e randomizado seria antiético. Como intervir dando cigarros a um grupo de pessoas sabendo dos riscos?
Hill já compreendia os riscos, principalmente porque um estudo caso-controle anterior, dele e seu colega Richard Doll, já sugeria tal associação.
Era, então, necessário defender um método para julgar a causalidade também a partir de estudos observacionais.
Os Critérios de Hill: Por Que Foram Propostos?
Em uma palestra à Royal Society of Medicine, Hill apresentou 9 critérios que ajudariam a distinguir uma mera associação de uma relação de causa e efeito.
Ele deixou claro que esses critérios não eram um checklist rígido, mas um conjunto de diretrizes para orientar o julgamento científico.
A proposta surgiu dessa necessidade de conferir solidez a inferências feitas a partir de estudos que não podiam ser experimentais — como os que envolvem fatores de risco como fumo, poluição, drogas, e muitos outros.
Os Critérios Mais Relevantes
No meu livro Tomada de Decisão Baseada em Evidência: como julgar o nível de confiança e o grau de recomendação de artigos científicos na área das ciências da saúde, eu destaco os principais 5 critérios de Hill, pois, os demais, julgo como não convincentes.
Então, os 5 que considero mais importantes são:

1. Força da Associação: quando o risco relativo ou odds ratio é muito alto (como no caso do cigarro e câncer), é pouco provável que a associação seja explicada por vieses ou fatores de confusão.
2. Consistência: resultados semelhantes observados em diferentes populações, por diferentes pesquisadores, fortalecem a hipótese causal.
3. Gradiente Dose-Resposta: quando o efeito aumenta conforme a exposição aumenta (ex: mais cigarros = mais risco de câncer).
4. Temporalidade: A causa sempre antecede o efeito. Esse é o único critério considerado estritamente necessário, e faz com que nem todos os estudos observacionais permitam inferir causa-efeito. Mas uma coorte, como a feita por Doll e Hill, pode permitir essa temporalidade.
5. Experimento (ou série temporal interrompida): quando a remoção ou redução da exposição reduz o efeito (ex: queda nas taxas de câncer após a redução do tabagismo).
Se aproxima da ideia de ‘série temporal interrompida’ (ex: redução de mortalidade em acidente de trânsito após obrigatoriedade do uso de cinto de segurança).
Conclusão: A Importância de Julgar com Critério
Os critérios de Hill ainda são bastante considerados. Embora o delineamento ECR seja o padrão-ouro, nem todos têm qualidade suficiente, e nem sempre é possível usar esse delineamento.
Por outro lado, estudos observacionais, como as coortes e os casos-controle, dependendo do rigor, podem até superar a qualidade de muitos ECRs.
Ter essa compreensão é fundamental para julgar corretamente a qualidade da evidência.
Se você quer aprender a avaliar criticamente artigos científicos — sejam eles experimentais ou observacionais — e tomar decisões melhores na sua prática profissional, convido você a conhecer meu livro:
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Recentemente escrevi um post mostrando a importância desse meu livro e de como usá-lo na prática. Vale a pena ler para entender como esse livro lhe ajudará: Polilaminina: NÃO há Evidência de Cura de Paraplégicos ou Tetraplégicos.

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Lunz, W. Os Critérios de Hill e a Prática Baseada em Evidência. Ano: 2025. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/os-criterios-de-hill-e-o-julgamento-da-evidencia [Acessado em __.__.____].

Autor: Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br. Tem se dedicado em transmitir conhecimentos baseados em evidências em diferentes áreas do conhecimento (ex: hipertrofia muscular, treinamento de força, musculação, fisiologia do exercício, flexibilidade). É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Atualmente é Professor Associado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Contato pelo site ou e-mail: welunz@gmail.com.br
